quinta-feira, 12 de outubro de 2017

FEMINICÍDIO

FEMINICÍDIO
O corno do meu ex quem me matou...
Foi me sangrando as carnes feito presa.
Seu gesto fora de ódio, não tristeza
Pelo amor que era pouco e se acabou.
Depois que tudo aquilo se passou,
Fugiu d'ali correndo na certeza
Que s'eu de suas mãos saísse ilesa
Ele não seria o homem que pensou.
Em face da barbárie consumada,
O povo só se admira; não faz nada,
Senão me ver culpada por ser morta.
Figuro como crime passional,
Estampado na capa d'um jornal
Que mais uma estatística reporta.
Betim - 11 10 2017

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

CHEIRO DE CHUVA

CHEIRO DE CHUVA

É no vento que a chuva vem primeiro...
Chega n'um cheiro cheio de sul e mar
Que roça as altas serras, sem parar,
E eleva em redemunho o chão mineiro.

Avanguarda das nuvens, esse cheiro
Súbito faz a noite refrescar
Em húmidas lufadas de bom ar,
Que boa prosa traz para o terreiro.

De vera, a gente sai sob relento
Apenas para já sentir no vento
A chuva qu'inda tão distante molha.

E espera, n'uma fé agradecida,
Pela estação das chuvas ver mais vida
Enfim reverdecer em cada folha.

Betim - 09 10 2017

sábado, 30 de setembro de 2017

O DESENGANADO

O DESENGANADO

Disseram-me que não passo de amanhã;
Para eu me preparar para minha hora...
Não que se tenha escolha, muito embora
A dor que me acompanha feito irmã.

A vida por um fio jaz mal-sã,
À espera d'uma mínima melhora.
De sorte que me indago mesmo agora
Se a morte é uma amiga ou uma vilã.

As horas que me restam em meu leito
Passo silente e só do mesmo jeito,
Com um semblante imóvel, olhando a esmo.

De qualquer forma morro pouco a pouco...
Já nem de todo lúcido nem louco,
Tão-só desapareço de mim mesmo.

Betim - 30 09 2017

OSTRACISMO

OSTRACISMO

Não que temesse ainda as soledades
Ou a violência dos ventos d'estes altos...
Apenas já não tenho sobressaltos
Toda vez que me inculpam inverdades.

Venho não por avesso às más cidades,
Mas sim por de beleza os olhos faltos:
Aborrecem-me os brados dos arautos
Tanto quanto murmúrio e inimizades.

Retiro-me das vistas e das falas,
E afasto-me do teatro do poder
Dos senhores em suas antessalas

Se tudo por mais longe mais fugaz,
Só pretendo à distância melhor ver
Na esperança que aqui encontre paz.

Juatuba - 24 09 2017

DO CONTRA

DO CONTRA

Dias há em qu'eu vou além da conta
E, igual louco, interpelo tudo e todos.
Questiono das razões e dos maus modos,
Mesmo com prejuízo meu de monta...

É quando mais nada me amedronta
Nem surpreende em face dos engodos
D'aqueles que chafurdam sobre lodos,
Tentando m'enrolar com lábia pronta.

Cá reverbero os ais de mil murmúrios
Nos quais me inflamo contra despropósitos
Que vêm maldisfarçados como augúrios.

Mas desconstruo ornatos por compósitos
E faço ver algures quão espúrios
Os valores de que enchem seus depósitos!

Betim - 26 09 2017

UMA IMAGEM E MIL PALAVRAS

UMA IMAGEM E MIL PALAVRAS

O que me diz a face que olha muda
Em pleno contraluz fotografada?
Talvez uma verdade imaginada
Que em minh'alma se faça mais aguda...

Ao que no seu olhar me desiluda,
Diante da lucidez ali encontrada;
Ou que dizendo tudo diga nada
Enquanto seu segredo se desnuda.

Em mil palavras soltas se traduz
A imagem que atirei de contraluz
N'alguma luminosa fotografia.

Logo as vejo lhe vir brotando uma a uma
Até que a vã linguagem se consuma
E n'elas reste apenas a poesia.

Betim - 21 09 2017

CORPUS CHRISTI

CORPUS CHRISTI

Porque sagrado o pão que aqui se oferta
A estes que se reúnem junto à mesa,
Dando graças p'la luz eterna acesa
Que enfim a alma dos homens fez desperta.

Porque sagrada a mão que está aberta
Para a oração e a bênção; posta em reza,
Enquanto se faz memória da grandeza
D'Aquele que há-de vir em hora incerta.

Porque sagrado o amor que se alimenta,
Cada vez que se come com irmãos
E a Palavra de Cristo lhes sustenta.

Mas mais sagrada a fé nos olhos sãos,
Que só aos mais humildes se apresenta
De ver o próprio Deus em suas mãos.

Betim - 19 09 2017