sábado, 16 de setembro de 2017

QUEBRA-CABEÇA

QUEBRA-CABEÇA

Mil peças espalhadas pelo chão
Sigo juntando há dias, sem descanso.
Como quando mui só, um louco manso
Joga pedras na lua e em seu clarão.

Ignoro que figura busco em vão
Ver formada à medida qu'eu avanço.
Só sei é ver o ardor com que me lanço
Ganhar logo contornos de obsessão.

Com efeito, o problema à minha frente
É tudo o que consigo ter em mente,
Visto que não complete o quadro todo.

E mais quebro cabeça ali, de modo
Que acontece d'eu ver enquanto explodo
Mil peças espalhadas novamente...

Betim - 15 09 2017

A ENCHENTE

A ENCHENTE

Perdi tudo o qu'eu tinha em minha casa:
Inúteis os retratos, livros, discos...
Voltei assim que pude; corri riscos,
Para rever só restos n'água rasa.

Mesmo agora, o arroio ainda vaza
Pelas frestas dos pórticos mouriscos.
Enquanto apenas pássaros ariscos
Pousam sobre gradis que a chuva arrasa.

Molhadas, as lembranças e a mobília
S'entulham pelos quartos da família
Sem que nada se possa aproveitar.

Acendo no salão outra candeia
E admiro àquele caos como se alheia
A vida que vivi n'este lugar.

Betim - 15 09 2017

terça-feira, 12 de setembro de 2017

INVERÍDICO

INVERÍDICO

Tomando por verdade devaneios,
De ficções tenho dado testemunho.
Logo, o que aqui se lê desde o rascunho,
São-me mais ansiedades do que anseios...

A galope, a cabeça vai sem freios
Girogirar ideias em redemunho,
Até eu declarar de próprio punho
Como se fossem meus vícios alheios:

Para os devidos fins, venho mentindo
Acerca do que é claro e do que é lindo,
No afã de viver vidas que não minhas.

Assim, eu de inverdades tenho escrito
Sempre as falsas memórias d'um aflito
Perdidas n'essas mal traçadas linhas.

Esmeraldas - 10 11 2017

sábado, 9 de setembro de 2017

VER-O-VERSO

VER-O-VERSO

O poeta, mesmo silente, não se cala:
Ver o verso no avesso d'uma folha,
Logo transforma a frase que ali olha
Bem diversa d'aquela que se fala.

De facto, o verso às vezes intercala
Luz e sombra de cujo ritmo recolha
As palavras que tem à sua escolha,
Enquanto seu olhar mais se arregala.

E, sílaba após sílaba, confere
A verdade a que o verso se refere,
Pelo metro de tônicas e rimas.

Pois ver-o-verso é lê-lo atentamente.
Ter que a poesia n'ele se apresente,
Se sentimentos por matérias-primas.

Betim - 04 09 2017

domingo, 3 de setembro de 2017

HOMENS D'ARMAS

HOMENS D'ARMAS

Lutam por glória, terras e bandeiras
Os que fazem da guerra seu ofício.
Pela História assistindo desde o início
O bailado incessante das fronteiras.

Mas, tendo morte e dor por companheiras,
A violência se torna quase um vício...
Em seus olhos não há qualquer indício
De culpas nem esperanças verdadeiras.

Espalhados pelo campo de batalha,
Eles aguardam que a ordem seja dada
E a sorte uma outra vez seja lançada.

Têm que a vida talvez nem tanto valha,
Preferindo arder logo feito chama
A perecer aos poucos n'uma cama.

Betim - 31 08 2017

O BÍGAMO

O BÍGAMO

-- "Mas d'agora em diante há-de ser assim:
Se eu vou, tu vens; e se ela vem, tu vais!
Amor, a bem dos bens, menos é mais...
Quando amar demais pode ser o fim."

"Talvez esse amor não seja tão ruim,
Sendo o querer tão simples, ademais,
Amar aos poucos não cansa jamais,
Pois as duas terão o melhor de mim."

"Não me peças para ir quando não posso!...
O instante de nós dois será só nosso;
O mais será saudade e distração."

"Amor, não fico aqui, pois, salvo engano,
Nada mais mata o amor que o quotidiano
E é terra de ninguém o coração."

Betim - 01 09 2017

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

FELICIDADES!

FELICIDADES!

Diverso é ser feliz de ser alegre
Tanto quanto há pessoas... Em verdade,
Alegria não é felicidade,
Embora nada nem ninguém as regre:

A bolha de sabão que desintegre
Em pleno ar, sem qualquer necessidade,
Senão como um capricho da vontade,
Faz que mesmo o infeliz talvez se alegre...

Alegria se externa n'um sorriso,
Ao passo que ao feliz não é preciso
Sequer algum motivo para o ser.

Felicidade está só na consciência.
O mais é distração; irreverência,
Que faça alguém sorrir sem nem querer.

Belo Horizonte - 24 08 2017