terça-feira, 15 de agosto de 2017

POR IRONIA

POR IRONIA

-- "Tudo bem?" -- alguém pergunta.
-- "Nada mal!" -- o outro responde.
... E a coisa segue por aí:
-- "Muito bom." -- aquele ajunta
-- "Bom ou mau?... Sem quê nem onde!" --
E diz de si para si:
-- "Quanto mais a boca assunta,
Mais o coração esconde...".

Não sabem o que dizer,
E dizem algo arbitrário
Ou que todo mundo diz.
Ninguém quer mesmo saber
Quanto sente e mente vário
Ao dizer-se bem feliz...
Por ironia, há-de ser
O contrário do contrário!

Ser feliz dizem que é dom:
-- "Ou se tem ou não se tem
Em si a felicidade!" --
Falam sem mudar de tom.
N'um paradoxo, porém,
Minto ao dizer a verdade:
-- "Está tudo muito bom...
Eu é que não estou bem!"

Betim - 07 08 2017

ENTRE FADAS

ENTRE FADAS

Doura às nuvens d'horizonte
Um sol nascente invernal,
Que vindo detrás do monte
Mostra a paisagem irreal
De colinas neblinadas.

Era íntima soledade
Onde encontro a fantasia:
A caminho da cidade,
Milhões de fadas eu via,
Como se luzes aladas!

De facto, ao nascer do sol
O mundo queda silente.
'Té n'orvalho o caracol
Para quando, de repente,
Fadinhas são despertadas.

Brincam no pólen das flores;
Voltejam dentes-de-leão...
A reluzir multicores
Asas da imaginação
Pelas manhãs encantadas.

Vêm e vão borboletando
E pousam de asas luzindo.
Até que de vez em quando
Voam o bailado mais lindo,
Nas auroras serenadas...

-- "Vinde folgar, minhas manas,
Sem qualquer reserva já!
Tão peraltas, doidivanas,
Voejai aqui e acolá...
Vinde, lindas! Vinde, amadas!..." -

Aquela às demais comanda
E de todas quer-se rainha,
Cantando a rodar ciranda:
... "Se esta rua fosse minha,
Tinha pedras ladrilhadas"...

Os mais diversos folguedos
Estes serzinhos brilhantes
Sempre tão belos, tão ledos,
Enchendo os ares errantes
Das minhas sós madrugadas.

Assim folgava eu também,
Absorto tão-só a vê-las.
E embora fossem d'Além
Ou dimensões paralelas
Eram ali admiradas.

Pois ver o que não se vê
E rir do que não existe
Alegra aquele que crê
Ou ao menos faz menos triste,
Enquanto está entre fadas.

Betim - 10 08 2018

MAIS VINHO!

MAIS VINHO!

Ora, bolas... Que maçada!
Se comida eu já comi;
Se bebida eu já bebi,
Mas de vinho não tem nada
O que faço ainda aqui?

Não venha à festa sem vinho
Quem mais como eu o aprecia.
Se o tinto é meu descaminho,
O verde traz-me alegria,
Esteja eu junto ou sozinho.

Um cálice transbordante
Reluzindo a luz de velas
Faz da namorada amante;
Visto as mulheres mais belas
E a conversa interessante.

É tanta felicidade
Prometida n'um só brinde,
Que até a prosperidade,
Cristais à mão, clamais: "Vinde!"
A que no vinho a verdade
Mais e melhor se deslinde.

Aquele que por primeiro
Nos dá carinho e calor
É, de janeiro a janeiro,
Tanto no amor que na dor
Sempre o melhor companheiro.

Amigos, por sua vez,
De alegria tão modesta,
Eu digo em bom português:
-- "Falte tudo n'uma festa,
Mas não falte o meu xerez!"

Belo Horizonte - 12 08 2017

DISPARATES

DISPARATES

Dizes as palavras certas
Para as pessoas erradas
Com um furor inclemente.
No peito, chagas abertas
Sangram tristezas passadas
Sobre amores do presente.

Ferida, feres de morte
Àqueles que por amor
Estão mais perto de ti.
E enfim se afastam, de sorte
Que um rastro de fúria e dor
Vás deixando aqui e ali.

Com tamanho destempero,
A pouca razão se perde
Em muita aporrinhação:
Tu, da calma ao desespero,
Tremendo igual vara verde
No calor da discussão...

Esses tantos sentimentos!
Essas razões tão injustas!
-- A olhos mal dissimulados... --
Dão tom para tais momentos
Nos quais deliras às custas
De quem escuta teus brados.

Porque no ataque s'escuda
Quem vive em meio a temores
E agride antes de agredido:
Só ódio à face desnuda
A vociferar horrores
Sobre mais um desvalido.

Betim - 13 08 2017

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

ANTICLÍMAX

ANTICLÍMAX

Pesa-me o ânimo triste após o coito
Como um fardo de culpa e de remorso.
No escuro, fixo o olhar sobre o alvo dorso
Alheio até da cama em que pernoito.

Mesmo tendo chegado um tanto afoito,
Só penso se terá valido o esforço:
Ignoro pela curva em seu escorço,
Se ela tem quarenta ou se dezoito...

Pouco importa... Sequer lembro o seu nome...
Ainda que por parvo ela me tome,
Ora a deixo sozinha em meio ao sono...

Saio apressado enquanto nasce o sol.
E a seiva masculina em seu lençol
É a única lembrança que abandono.

Belo Horizonte - 15 05 1995

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

O SÓSIA

O SÓSIA

Parece bem comigo e não é eu
Aquele em cujo rosto me confundo...
Tanto, que seria eu se n'algum mundo,
Onde também seu rosto fosse o meu...

Olhando-o frente a frente, sucedeu
De n'ele ver talvez meu eu profundo
A ponto d'eu pensar por um segundo
Que de facto meu rosto fosse o seu.

E se for? Ou melhor, s'eu não for um?!
Se além d'ele e de mim houver algum
A repetir-se em mil rostos iguais?...

Mato-o: Vejo-me morto em fria ardósia...
Resta-me o sósia qu'eu sou de meu sósia
Vivendo em seu lugar uns anos mais.

Betim - 04 08 2017

terça-feira, 1 de agosto de 2017

REBOSTEIO

REBOSTEIO

Este estado de coisas que nos cerca
-- Com todos os senões vãos de permeio... --
Algures têm chamado rebosteio,
Pois bosta às mentes férteis mais esterca:

O mal-lavado com o sujo alterca,
Em disparates pondo as mães no meio.
Sei de boa intenção o inferno cheio,
Mas sempre tem alguém pulando a cerca...

Facto é que não há factos, sim factoides!
Os grandes batem boca nos tabloides,
Enquanto quedam mudos os miúdos...

Contudo, pagam tortos por direitos.
Ninguém nunca assumindo seus mal-feitos,
Até pela verdade enfim desnudos.

Belo Horizonte - 28 07 2017