sexta-feira, 17 de novembro de 2017

CLAQUETE

CLAQUETE

Os fotogramas correm pela fita
Vinte e quatro quadros por segundo...
Por pôr em movimento um outro mundo
Enquanto o olhar lhe finge que acredita.

Na tela, a vida é muito mais bonita
E até o quotidiano mais profundo.
Ora imperador; ora vagabundo
A personagem segue a sua escrita.

Quando a imagem e o som em sincronia,
Na montagem dos rolos da edição
O encanto do cinema acontecia:

É tudo de mentira... Outra ilusão
De quem projecta luz mais fantasia
E ao baque da claquete diz: --"Acção!".

Betim - 12 11 2017

SARAVÁ!

SARAVÁ!

À força que habita em ti,
De mãos erguidas saúdo!
Respeito, acima de tudo,
A luz que te trouxe aqui
E a fé no peito desnudo.

A paz que levo comigo
Contigo esteja também.
Chega-te, como convém:
Tu tens em mim um amigo,
Nas horas de Deus, amém!

À luz dos antepassados,
Celebremos mão a mão.
De pés descalços no chão
Acompanhando ritmados
Batuques do coração.

Onde espíritos e santos
Vêm fazer sua morada,
És bendito desde a entrada.
Reverencia os quatro cantos,
Pois esta terra é sagrada.

Que se abram teus caminhos
Nas cantigas de orixá!
Pela glória d'Oxalá,
Do Pai recebe os carinhos:
-- "Anda com fé... Saravá!"

Betim - 16 11 2017

TRAQUINAS

TRAQUINAS

Dizia o pai de seu pai:
-- "Deixa esse menino ser criança!"
Aquilo entrou na lembrança,
E volta se se distrai
Ou quando quer ter esperança.

De facto, quando menino
Fora feliz sem querer.
Livre -- por assim dizer --
Só fazia o pequenino
O que queria fazer.

Vivia de pé no chão
A correr pelo terreiro...
Aprontava o tempo inteiro
Se safando da confusão
Com um sorriso matreiro.

Adorava pregar susto
Em quem visse pela frente.
Amado de toda gente,
Insistia a todo custo
Em se alegrar simplesmente.

Tudo hoje é apenas ânsia!
O tempo passou... Talvez
Nada valha após os dez!...
Só quer em segunda infância
Criança ser ele outra vez.

Betim - 17 11 2017

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

ARTE-FINAL

ARTE-FINAL

Tenho me debruçado sobre esboços
Onde, rebuscando algo de interesse,
Faça querer saber quem não soubesse
E fale ao coração dos mais insossos.

Aqueles que, como eu, já não tão moços,
Em cujo turvo olhar mal transparece
Qualquer outra empatia senão esse
Gosto por exageros e alvoroços.

Aprendam a ver arte em quase tudo
De modo que o desenho não mais mudo
Expresse o pensamento ensimesmado.

E vejam com meus olhos a beleza
Que enxergo na sutil delicadeza
De imagens e palavras lado a lado.

Betim - 15 11 2017

domingo, 12 de novembro de 2017

DRAMATIS PERSONÆ

DRAMATIS PERSONÆ

Eis: Estes são aqueles que não sou!...
Quem talvez pudesse ter eu sido
Se diversa actitude houvesse tido
Ou as escolhas lograsse refazer.

São pessoas que em mim fui conhecer
Vivendo algo que não tenho vivido.
Eu por meio d'elas vivo o impermitido
Em transes d'aventura e de prazer.

Uma a uma, experimento fantasias
Ao ponto de me outrar pelas pessoas,
Cujo drama ando a ver todos os dias.

Mas, s'eu para a plateia exclamo loas
É bem para que me ouçam ousadias
E guardem de meus eus memórias boas.

Betim - 12 11 2017

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

GAMBIARRAS

GAMBIARRAS

Tudo o que se tem à mão
Ganha nova utilidade
Quando se faz solução
Que resolva, certa ou não,
Na hora da necessidade.

Para alumiar, por exemplo,
Os sós desvãos da consciência
De olhos fechados contemplo
Minh'alma como se templo
Da já perdida inocência.

Assim também a poesia
Lança luzes onde obscura
A ciência ou a filosofia...
Dando às letras fantasia
E aos males da mente cura.

Pois precária e provisória
A verdade d'umas rimas,
Não pretende maior glória
Que guardar pela memória
Alguns lampejos de estimas.

Mesmo rimas de improviso,
-- Qual oráculo os bandarras --
Já nos põem de sobreaviso
E alumiam onde é preciso
À maneira de gambiarras.

Betim - 08 11 2017

MÁQUINA DE ESCREVER

MÁQUINA DE ESCREVER 

Tinha os olhos mais doutos que letrados
Atrás d'aquelas teclas cheias de dedos...
Metralhava ao papel amores ledos
Em vermelho e maiúsculas grafados.

Saudoso de meus versos extremados,
Reconheço ora às laudas velhos medos
Nas entrelinhas onde sós segredos
Foram quedar por décadas guardados.

A folha em branco -- pura mas vazia --
Recebendo-me as letras que algum dia
Farão tremer o peito ainda infante.

Uma máquina feita de esperança
Aquela onde escrevera quando criança 
E onde alguma poesia fez-me errante.

Betim - 11 11 2017