sexta-feira, 25 de maio de 2018

VÊNUS VETUSTA

VÊNUS VETUSTA

O Tempo tudo nos muda,
Deteriora, envelhece...
Nunca a ninguém ele ajuda!
Por segar a sua messe,
Colhe da face desnuda
A rósea maçã carnuda
De quem seu lavor padece.

As belas neves d'outrora
Onde estarão? Onde estão
Da florescente Senhora
Seus olhos que nem clarão?
Quase nada veem agora
Se quando o sol vai-se embora
Só lhe deixa escuridão...

'Té o rosto lhe é estranho
Tal-qual a mão sob a luva:
Envelhecida no amanho,
A pele se fez murcha uva;
Em prata, o cacho castanho
E o véu de noiva d'antanho
Hoje um xale de viúva...

Que é dos passados encantos?
Que é dos antigos louvores?
Olhos banhados em prantos,
Passa entre achaques e dores
Vivendo à espera de espantos
Ou da morte, que faz santos
Mesmo os grandes pecadores.

Quem fora tão desejada
Deseja ora estar sozinha...
E a beleza celebrada
Jaz, por obscura e daninha,
Como ventura passada
Que lhe dói quando lembrada
Diante de tudo que tinha.

Os homens -- tão inconstantes! --
Com promessas insensatas...
Seus arroubos delirantes
Lhe cercando entre bravatas:
Indo de amigos a amantes;
Depois, de amantes a errantes
E, enfim, de errantes a erratas!

Que dizer dos grão-senhores
Que seu amor fez captivos?
Dos sérios comendadores
Com ela sempre festivos?
Dos vãos especuladores,
Dos agiotas, dos doutores
Cobiçando-a d'olhos vivos?...

Quem, como rainha entre reis,
Dominou-lhes as vontades?
Contra os costumes e as leis
Com extremas liberdades,
Vê-se perdida das greis
A contar de seis em seis
A própria infelicidade.

Os primeiros seis foram ricos;
Os segundos, poderosos
-- De rendas como fabricos;
Os terceiros, perigosos...
Mui violentos e impudicos;
E os demais, só namoricos
Cada vez menos fogosos.

Um após outro se vão,
Levando a sua beleza.
Sem nada no coração,
Senão alguma torpeza...
Contempla-se em solidão,
No espelho em sua mão,
A sua própria tristeza.

E o Tempo, só por capricho,
Lhe adia o fim de sua obra,
A esculpir-lhe em cada nicho
Outro vinco que lhe sobra.
Sobre a face algum pasticho
Caricatura-a igual bicho
N'um misto de águia mais cobra...

Afinal -- eu vos inquiro --
Que é d'aquela tão augusta?
Recolhida em seu retiro,
Dia após dia se assusta
Co'o Tempo que, sem respiro,
D'uma Vênus, giro a giro,
Fê-la outra mulher vetusta.

Betim - 25 05 2018

quinta-feira, 24 de maio de 2018

O HOMEM DO SACO - O Homem do Saco e outros Contos

O HOMEM DO SACO

Andava bem cedo cedo para o trabalho quando vi um homem a carregar algo. Ele passou por mim na avenida que margeia o rio da cidade em que vivo. Trazia consigo um saco de pano alvejado relativamente cheio. Parei a certa distancia e o vi saltar a mureta da avenida para, após, avançar até a margem gramada. Lá, deitou cuidadosamente sua carga e, após longos minutos olhando para aquela coisa, partiu. Contudo, quando estava já a alguns metros do saco, parou, vasculhou os bolsos e tirou algo como um botão de rosa vermelha. Ele a cheirou e, voltando lentamente em direção ao saco, repetiu a muda contemplação. Por fim, lançou a rosa sobre. Abalou d'ali calmamente e, após galgar o barranco beira-rio, chegou à avenida, onde o perdi de vista rumo ao centro da cidade.

O leitor há-de convir que, pelo modo atípico que procedera, não parecia que tal homem se desfizesse de lixo ou de coisas velhas. Ao contrário, dir-se-ia que um ritual venerável acabara de acontecer diante dos meus olhos, tal a gravidade que o homem se impunha nos mínimos gestos. Temi pelo pior...

Não que a aparência d'aquele homem inspirasse qualquer forma de sofrimento mental ou de tendências violentas. Era um tipo de meia idade vestido com certo apuro que, inusitadamente, carregava um saco de pano que, nem grande nem pequeno, pouco parecera lhe pesar às costas. Mas, o que poderia haver naquele saco para inspirar tamanha reverência?

Distraído da urgência em chegar ao trabalho, dei livre curso à minha imaginação. Fora uma cena tão bizarra que tenho certeza de que o leitor, tal como eu, deva se lembrar das histórias de quando criança acerca d'um personagem sem rosto que assombra filhos e, sobretudo, pais: O homem do saco. Crianças pequenas desaparecidas sem testemunhas, como que tragadas pelo chão. Ele, a entidade misteriosa, era o culpado quando culpado não havia, ao menos não um identificável. O saco, embora médio, podia ter um bebê já morto ou abandonado ali para morrer.

Qual o quê, isso não! Estávamos à luz do dia em uma avenida de certo movimento. O que eu havia visto decerto mais alguém vira, apesar de ainda não ter amanhecido de todo e da neblina rarefeita que tomava os baixios. Ademais, não percebi a menor sombra de medo ou receio na quase teatral despedida que o homem se impôs ao saco e seu conteúdo. Não teve pressa em se evadir do local e tampouco parecia temer a interrupção de quem quer que fosse em seu demorado contemplar do saco sobre a grama à beira do rio. Nada fez para se esconder e nada parecia ter a esconder.

Podia, sem embargo, ser alguma espécie de relíquia. Aquele homem deixara ali algo que era ou fora valioso para si. Cartas, fotos, documentos, lembranças?... Sim, havia de ser! Seu aspecto ensimesmado que então eu recordava me fez tomar outra opinião desse homem e seu saco. De facto, ele parecia se despedir de algo ou alguém ao se demorar. Tomado pela curiosidade, fiz menção de ir até a beira do rio, porém contive-me: Aquilo não era da minha conta! Não devia me envolver, fosse o que fosse, mesmo que lograsse fazer uma descoberta. De qualquer forma, logo algum transeunte deveria passar e ver o que havia no saco. Eu tentava pensar em outra coisa, mas simplesmente não conseguia! A imagem de alguém a passar, parar, abrir o saco e se rejubilar com o achado me perturbava profundamente. Afinal, era uma oportunidade.

Àquela altura minha imaginação não tinha mais freios... Já não eram papéis velhos de recordos infelizes que jaziam ali, pensava eu, eram jóias! Pois sim: Agora, com toda a certeza, eu compreendia a insólita cena... Agora sim percebia claramente o que vi... Agora podia dar fim a tais elucubrações vadias.  Deveras, o homem do saco tinha o olhar perdido dos amorosos e a angústia dos que renunciam a grandes esperanças! Era um olhar de dor mal contida sob solene sobriedade. Haja o que houver naquela saco, tem a ver com seu olhar melancólico, concluí.

Quando me dei conta, já estava a caminho da beira do rio. Acto contínuo, atravesso a avenida, salto a mureta da guarda e ando sobre a grama sem tirar os olhos do saco que tanta imaginação me havia causado àquela manhã. Aproximo-me, lentamente. Paro. Miro o saco inerte sem que ainda nada em sua aparência denunciasse seu conteúdo. Relembro cada detalhe do antigo possuidor d'aquele saco na ânsia de encontrar algo que me preparasse para qualquer dissabor ao abri-lo... Todavia, nada me ocorreu. Tudo, -- o lugar, a hora, a postura do sujeito, a longa contemplação ao fim... -- tudo apenas indicava haver algo surpreendente dentro daquele saco a poucos metros de mim. Em tempo, estava sozinho e me asseverava constantemente de que não fora seguido ou observado. Súbito surge em mim um profundo sentimento de posse em relação àquele saco. Ele era meu! Eu o havia visto primeiro! Após vencer a minha própria desconfiança, estava ali pronto para usufruir das melancólicas lembranças de um amoroso abastado. Sim, devia haver jóias delicadas lá! Ex-votos d'Amor cuja presença ele não pôde suportar junto a si; presentes de dias felizes, mimos de passeios românticos... Enfim, caro leitor, um espólio de sentimentalidades!

Fui chegando perto do saco já quase triste por fatalmente sair do transe de que a imaginação me havia feito presa. Aquela emoção de profunda beatitude de ser o escolhido do Fado, fortuito descobridor de segredos! Paro diante do saco e identifico a rosa vermelha que o vi jogar. Agacho-me e a retiro sem maiores cuidados. Toco o pano e abro o saco. Observo. Está cheio de toda sorte de papeis rasgados, mas algo em seu interior parecia mais denso e pesado. As tiras de papel, para minha alegria, denunciavam profunda atividade emocional. Sim! Eram manuscritos, fotografias, bilhetes de teatro e cartões  rasgados com violência por alguma alma passional... Era forçoso vasculhar o saco e achar o que tinha além de papel nele. Abro mais a boca, chacoalho. Tem algo ali! Enfio as duas mãos quase com violência e aperto a matéria oculta sob os papéis. Contudo, ela se desmanchou ao aperto... Não era um bebê morto ou qualquer violência absurda. Não era uma relíquia dourada... Era simplesmente um monte de merda! Instintivamente tirei as mãos do saco, mas era inútil, pois, a merda, presa à pele, impregnou minhas mãos. Quanto mais eu as agitava, mais fediam!

Olhei para o saco entristecido. Tudo fora um golpe, uma PILHEIRA! E, ainda que não se visse pessoa, eu podia ouvir uma gargalhada zombeteira dentro de mim... Fiquei aturdido. Não poderia sair dali naquele estado e tampouco havia com o que me limpasse. O rio, urbano, corria ao fundo de um canal inacessível.

* * *

Sem saber o que fazer, permaneci ali algumas horas, esperando que anoitecesse para que meu vexame fosse menor. Acho que de tão transtornado pelo engodo em que caíra eu sequer conseguia pensar com clareza. Meus olhos chispavam ódios e meus lábios maldiziam vinganças. Todavia, não tinha ninguém para culpar a não ser a mim mesmo, afinal, eu tomara a decisão de abrir o saco e vasculhá-lo! E esse pensamento apenas me entristecia mais...

Quer por curiosidade; quer por ambição, eu cai numa esparrela! Só me restava bradar contra o Fado por ter-me posto o homem e seu saco no caminho... E eu o fiz: Murmurei diatribes infindas contra os céus, contra o homem do saco, contra os amores do homem do saco, contra o próprio saco e, sobretudo, contra a merda no saco!

Penso ter passado um bom tempo assim, a praguejar contra tudo e todos, até que um menino se aproximou dali. Ele cuidava de cavalos de carroceiros que, enquanto não tinham carreto, levavam seus animais para pastar a grama da beira do rio. O menino se aproximou intrigado e me perguntou o que eu estava fazendo naquele lugar. Muito envergonhado, eu lhe contei a história do homem do saco que eu surpreendera horas atrás e de como ficara preso ali, ao que ele perguntou:

-- "Por que você não vai embora e deixa esse saco aí? -- e reparou melhor no pano alvejado -- "Você tem certeza de que só tem merda e papel nele?"

Eu olhei de novo para o saco e respondi:

-- "Eu estou com tanta raiva, que mesmo se houvesse ouro no meio da merda, eu preferiria jamais ter posto os olhos nesse saco!" -- em um desalento sincero -- "Não vale a pena se aproximar disso: Não tem nada de bom aí!"

O menino se aproximou do saco receoso. Sacudiu e olhou dentro. Torceu a cara ao sentir o fedor da merda remexida e deduziu, tal como eu, que não havia nada de bom ali. No entanto, ele insistiu:

-- "Vamos sair de perto disso!"

Ao que lhe contestei:

-- "Mas, e se outra pessoa passar e, pensando que tem algo no saco, ficar breado de merda também?" -- meu pesar era sincero... -- "Não quero que ninguém passe pelo o que passei. Além do mais, não posso ir embora pela avenida sujo assim!

-- "Uai! -- exclamou o outro -- "É melhor enterrar então." -- e concluiu: -- "O que não pode é ficar igual você está: Reclama que a merda fede, mas não sai de perto... Fica só lamentando com quem passa, ao invés de fazer algo de útil!". -- E foi-se embora.

* * *

O sol ainda estava alto. Fiquei olhando atônito para o menino que partia sem que eu tivesse como contrapor seu argumento. De facto, minha actitude era mesmo patética! Com as mãos sujas de merda e sem ter como lavá-las ou como andar pela rua, só me restava cavar o chão e enterrar o saco. Ademais, era uma maneira mais útil de passar o tempo enquanto o sol não começasse a declinar no céu.

Assim fiz, primeiro limpando uma clareira no gramado. As mãos, sujas de terra e de merda, fediam tremendamente... Começo a cavar o chão e, com muita dificuldade, abro um buraco raso. Despejo o conteúdo do saco no buraco que fiz e vejo o papel misturado com merda encher tudo. Agora, com o sol forte, o fedor era evidente. Não entendia como não pude percebe-lo mais cedo, antes de pôr as mãos no saco... Ou a certeza de achar algo me absorvera de todo; ou, com o tempo ainda frio, a merda não fedesse tanto. O facto é que agora, com o conteúdo todo ao ar livre, pude distinguir algo pequeno brilhando no meio daquilo. Talvez fosse um anel... Uma aliança... Ou talvez não fosse nada. Cheguei o rosto bem perto e era, de facto, um pontinho dourado a reluzir na massa escura fedorenta. Para saber o que era, só pondo a mão na merda de novo! O leitor deve se lembrar do que eu dissera ao menino -- "mesmo se houvesse ouro no meio da merda"... -- Olhei longamente o brilho faiscante no meio da merda. Teria de meter a mão de novo naquilo... Não o fiz: Deitei terra sobre merda, papeis e saco de pano e, com o monturo já alto, eu fui embora tendo a certeza de que era o melhor a ser feito.

Era um mal menor. Já havia perdido tempo e trabalho naquele dia. Aquela história de saco abandonado já me custara muito e eu sequer podia confiar no que vira, tamanha a minha raiva. Simplesmente, não queria mais saber. Apenas sair dali já me servia de consolo.

Mesmo assim, dia após dia, enquanto passar por aquela avenida a caminho do trabalho, eu olharei para um monturo que apenas eu sei reconhecer, matutando sobre o possível anel ali deixado. Sem esquecer, contudo, do dia inteiro que perdi às custas de um homem e seu saco.

Betim - 05 05 2016

quarta-feira, 23 de maio de 2018

TUTEAR

TUTEAR

Trata-me já por tu. Afinal, te amo
E não quero te amar só verbalmente:
Tanto de coração quanto de mente,
Tudo fale d'amor quando te chamo.

Podes me tutear, eu não reclamo.
Melhor que parecer indiferente...
Antes tentar falar do que se sente,
Do que jamais dizer quanto me inflamo.

Deixa-me te contar dos passarinhos
E te enlevar com todos os carinhos
Que guardei para ti em minhas mãos.

A fim-de que tu possas me saber
Que já sou teu apenas co'o dizer.
E assim tu me distingas entre os vãos.

Betim - 23 05 2018

terça-feira, 22 de maio de 2018

ESTHER

ESTHER

Não raro te surpreendo enternecida
E me perco em teus olhos tão bonitos...
Constelada de deuses e de mitos,
Estrela da manhã e toda a vida.

Não sei a que desastres me convida
Teu olhar entretido em infinitos
No qual há tanto tempo os olhos fitos
Te tenho entre as estrelas confundida.

Brilhante! Como não? Se és tu estrela!...
Sigo o Fado que à tua luz se atrela
Aonde me conduzes amorosa

Decerto em ti descubro quanto é lindo
Emocionado em ver-te ressurgindo
Nas luzes d'um poente cor de rosa.

Betim - 14 05 2018

domingo, 20 de maio de 2018

AGRADOS

AGRADOS

Deixa-me te agradar; te agradecer.
Apenas um carinho, um mimo, um verso...
Ir me aventurar por teu universo
Sem levar uma bússola sequer.

Cada recanto teu vou conhecer
Ao recolher teu mel em vão disperso.
Mas quando estiver todo em ti imerso,
Eu sinta tua essência me envolver.

Deixa-me te fazer só um agrado
E te dar um pouquinho do que sou
A sentir teu calor cá do meu lado.

É o melhor que tenho que te dou...
Amor que só existe p'ra ser dado!
Amor que apenas tem quem muito amou!

Betim - 24 10 2016

ARDENTE

ARDENTE

Sinto ao beijar-te os lábios tão perfeitos
Que a mim se tornaram quase um vício.
Não que ignore d'Amor a arte e o artifício
A ponto de jamais te ver defeitos.

Na dúvida do quanto ainda afeitos,
Seja o desejo a nós melhor indício!
Se, após, não deixar mínimo resquício,
Partamos sem rancores ou despeitos.

Tu, bela, o prazer tens como promessa,
Mas não mais que esse gozo prometido
Temos para nos dar se o amor perdido.

Agrademo-nos, pois, a toda pressa!
Antes que passe o ardor dos desvarios
E aos lábios só te deixe os olhos frios...

Belo Horizonte – 29 05 2005

quinta-feira, 17 de maio de 2018

BOA VIZINHANÇA - O Homem do Saco e outros Contos

BOA VIZINHANÇA - O Homem do Saco e outros Contos

Pareceu-me um tipo bem apessoado, d'aqueles que pela simpatia logo conquistam: Sorria, respondendo positivamente a tudo quanto lhe dissessem. Enfim, queria sempre resolver o problema, existisse ou não.

Mudara-se há pouco para vizinhança e havia me procurado, enquanto eu me preparava para sair de casa. Era de manhã bem cedo e estava frio. Ele se aproximou, identificou-se como o novo vizinho e pediu-me ajuda com o hidrômetro: Após algumas horas de faxina, dissera, faltava-lhe água em casa... Embora estivesse vestido para o trabalho, fiquei sensibilizado e lhe fiz o obséquio de subir com ele ao castelo d'água de sua casa e lhe mostrei o reparo que devia fazer na boia da caixa. Ele, muito agradecido, me desejou um bom dia enquanto eu saía para cuidar da vida. Horas mais tarde, ele me cerca ao voltar com minha filha da escola: Pedia que lhe ajudasse com o gás de cozinha, pois não tinha ainda contactos na cidade. Mandei vir o gás e ele pagou o entregador. Quando saí do almoço para voltar ao trabalho, ele outra vez me chama e pede para ver o sinal da antena de TV enquanto ele a ajusta no telhado. Confesso que a boa vontade já estava no fim, mas não lhe neguei também esse pedido. Imagem na tela, já me dirigia à saída quando ele, com sua positividade característica, pediu-me que lhe ajudasse a instalar também o chuveiro. Aquilo me pareceu demasiado e lhe disse não. Argumentei que estava atrasado para o trabalho e ele assentiu.

Já de noite, topo com o vizinho na rua. Ele apenas esperava que eu chegasse para lhe emprestar a caixa de ferramentas e poder instalar seus trens. Havia pedido à minha esposa mais cedo, mas ela se escusou de fazê-lo, alegando que não mexia em minhas coisas. Cansado, fui até a garagem e peguei a bendita caixa. Ele gracejou algo que me pareceu exagerado e disse que devolvia assim que terminasse. De facto, tão logo entrei em casa já pude ouvir o zunido da furadeira e, após, as batidas do martelo. Da sua casa, parede-e-meia com a minha, dava-me a impressão de que trabalhava comigo dentro... E foi assim até bem tarde, n'uma faina ininterrupta até que lá pelas onze da noite fui forçado lhe bater na parede geminada e ele silenciou lá do lado d'ele. Mesmo assim, ainda pude ouvir sua movimentação ajeitando móveis até de madrugada, n'uma insônia inoportuna e sem remédio... Como não conseguisse dormir, preparei-me para sair no dia seguinte ainda mais cedo que o rotineiro no sentido de evitá-lo, como já pressentisse que viria ter comigo. Dito e feito: Mal ponho os pés na calçada e lá estava ele, muito clamoso, pedindo-me desculpas pela algazarra da noite anterior. Civilizado, disse compreender. Ainda falava quando ele engatou um novo pedido, agora de carona ao Centro da cidade para ver a instalação do telefone. Como não me custava nada -- nada além do inconveniente de sua companhia, é claro -- dei-lhe a carona, embora visivelmente mal-humorado pela noite em claro. Ele, ao contrário, parecia jovial como sempre. Puxou assunto durante todo o percurso, ao que lhe respondia com monossílabos ou expressões genéricas. Se percebera minha irritação, fingiu não ser com ele. Despedi-o na avenida do comércio e segui com o auto para o meu trabalho mais adiante.

Tudo parecia conspirar contra mim n'aquele dia... Na hora de vir para almoçar em casa, topo com o farol do carro ligado e a bateria descarregada! Pedi para vir o eletricista e o mesmo só poderia me atender mais para o final da tarde. Liguei para casa e disse que não viria almoçar e tampouco pegaria nossa filha no colégio. À procura d'um restaurante, desço para o Centro a pé e entro no primeiro que identifico. Por mal dos pecados, topo com o vizinho se servindo ainda na fila da balança: Que maçada! Muito sorridente, o coitado me chama para sentar-me com ele à mesa. Sem qualquer alternativa razoável, aceito e sigo com ele para o mezanino do restaurante. Já antevia outra conversa inútil como a da manhã e ele não me decepcionou: Falou o tempo todo! Contou da cidade d'onde vinha, da família que tinha e da casa junto à minha!!! E eu, que seguramente não queria saber de nada daquilo, fui obrigado a lhe tolerar uma hora de conversa fiada. Nervoso, olhava continuamente para o relógio em busca d'um pretexto que me tirasse d'aquele lugar, mas não havia. Quando finalmente terminou sua refeição e pagamos, o dito cujo pergunta a que horas volto para o bairro pois passaria ainda o resto da tarde no Centro. Informo-lhe o horário, ao passo que o outro, com um sorriso aberto de orelha a orelha, já confirma a conveniência de me acompanhar. A contragosto, combino onde o pegaria e volto para o trabalho. De facto, , n'esse meio tempo, o eletricista veio com a bateria carregada e pôs o carro para funcionar, logo, sequer essa desculpa me livrara... Paguei o conserto e fui encontrar meu algoz para mais uma hora de companhia forçada. E ele estava lá, tal como combinado. Seu sorriso já me causava mal estar e sua conversa infindável já era evidentemente um suplício para mim. Quando chegamos, cheguei a sorrir com a perspectiva de me livrar d'ele, mas o vizinho, para minha surpresa e sem qualquer cerimônia, me acompanhou até dentro de casa e entabulou conversa com minha esposa! Ela, que não esperava a visita, foi logo preparando um café e o recebeu na cozinha mesmo, como já se fosse de casa... Fiquei ali, pasmo, assistindo aquele disparate e indeciso entre pô-lo para fora com alguma indisposição súbita ou acompanhar minha mulher em sua recepção improvisada. Decidi-me pela segunda opção que, embora desagradável, parecia a mais correta. A conversa enveredou para a pane da bateria do auto e os imprevistos subsequentes. Seco, narrava os factos resumidamente, enquanto nosso convidado parecia se deliciar em não só desenvolvê-los, mas ainda em analisá-los e interpretá-los à luz do Fado ou da História... Duas horas virando xícaras de café para rememorar um dia que parecia interminável! Quando eu já pensava que jamais se cansaria de nós, o vizinho, cheio de nove horas, decide finalmente se retirar.

Ao me deitar, desabafei com minha mulher o quanto me custava suportar aquela companhia constante do vizinho. Ela, como era de se esperar, me censurou veementemente. Disse que era um exagero meu; que eu vivia como um caramujo, insociável e impaciente etc... Enfim, arrumei para a cabeça, como diz o outro. Encerrei o assunto prometendo ser mais tolerante com o coitado que, de modo evidente para mim, precisava de novos amigos.

Dia seguinte, estranho a calma de sua casa e vou para o trabalho. Não há sinal d'ele ou de qualquer pessoa em sua casa. Tudo transcorre bem ao longo do dia e volto para casa no horário de sempre. Contudo, não suportando a curiosidade, aperto-lhe a campainha e, assim que me atende, vou logo lhe perguntando pelo dia e se precisava de alguma coisa.

Betim - 17 05 2018