quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

O PIROMANÍACO

O PIROMANÍACO

Eu, que aos vinte me fiz um incendiário,
Aos quarenta pretendo-me bombeiro...
Quer pseudo-radical; quer embusteiro
O facto é que já fora um temerário.

Louco, salvo evidências em contrário,
Hoje em dia me têm por muito ordeiro
E dos grandes um grande companheiro,
Mesmo não sendo nada extraordinário.

Deliro co'a cidade ardendo em chamas,
Mas depois, entre alarmas e proclamas,
Exorto o povo a vir em meu socorro.

Da esquerda para o centro se transita
Sob pena de tornar-me um parasita,
De agravos em juízo 'inda recorro.

Betim - 08 02 2018

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

EU E TU

EU E TU

Até onde eu consigo me lembrar,
Aquele foi um dia ensolarado...
Talvez tenha sido eu; talvez o Fado
Ou apenas te calhou de m'encontrar.

E tu, sem qualquer pressa de chegar,
Nem vias quanto havias caminhado.
De mãos dadas, paramos lado a lado
E soubemos um ao outro desvendar:

Eu não te disse muito. Tu tampouco.
Mas o mundo parece menos louco
Quando contemplado desde o abismo.

Já de noite, depois de tais assuntos,
Eu e tu d'ali saímos nós dois juntos
A andar de cataclismo em cataclismo.

Betim - 06 02 2018

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

ARIDEZ

ARIDEZ

Como ouvisse trovão e não visse raio,
No claro céu dos longes dos sertões.
Assim também os secos corações
Qual chão esturricado ao sol de maio...

Incoerências à parte, de soslaio,
Surpreendo redemunhos d'emoções
Varrendo as desoladas amplidões,
Onde antes todo o campo verde gaio.

Brilhante, o contraforte do penedo
Reluz igual matéria incandescente
Àquela claridade onipresente.

De facto um novo sol cada rochedo,
Espelhando-se a pino no meio-dia
Por sobre terra tórrida e vazia.

Mantena -  30 05 2017

domingo, 4 de fevereiro de 2018

EVASÃO

EVASÃO

Qualquer lugar que não esse onde vivo!
Qualquer tempo que não o meu presente!...
A vida em devaneios por simplesmente
Não lhe saber sentido nem motivo.

Em utopia estar contemplativo!
Em fantasia ser quem tenho em mente!...
Imaginar o mundo tão-somente
Ao invés de o descrever tão objetivo.

Algures bem melhor do que eu aqui;
Antanho bem melhor do que eu agora:
Distinto é quanto sou do que senti...

Seja eu meio acolá ou meio outrora,
Flanando enmimesmado em vão por aí,
Diverso ao que hei vivido vida afora.

Betim - 04 02 2018

sábado, 3 de fevereiro de 2018

NU FRONTAL

NU FRONTAL

Exposta na parede (um calendário!),
Outra nudez perfeita e exuberante...
De facto, nada mais interessante,
Que ver o que s'esconde de ordinário...

Não tinha ela vergonha, ao contrário,
Antes buscava o meu olhar errante
E de quem mais ficasse ali bem diante,
Entretido entre o real e o imaginário.

Janela de adentrar na fantasia,
Aquela costumaz fotografia,
Que se via em qualquer suja oficina.

Era expressão de pura liberdade
Ao fazer da mulher sensulidade
N'uma sexualidade masculina.

Betim - 03 02 2018

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

RIBEIRÃO DA CACHOEIRA

RIBEIRÃO DA CACHOEIRA

Luzindo a cada salto; a cada queda,
As águas nos lajedos de granito...
Era tudo tão bom quanto bonito,
Por onde o rio abaixo s'envereda.

Um pássaro outro pássaro arremeda
Seu trinado de quero-quero aflito.
Mas oculta entre as águas acredito
Da própria Uiara ouvir sua voz leda.

Bandos de maritacas fazem festa
No dossel verdejante da floresta
Até a tarde cair mais preguiçosa.

E, por fim, espraiado n'um remanso,
Paro para admirar como descanso
O céu se colorir em tons de rosa...

Betim - 14 01 2018

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

À DERIVA

À DERIVA

Perdidos já o leme e a vela, corro 
Os olhos pelo oceano a ver o abismo 
Onde aprecio em meio ao cataclismo 
Lindas sereias cantando enquanto morro.

Vem tão-só um petrel em meu socorro 
E pouco pôde diante do que cismo 
A tempestade é um vão paroxismo 
Meu ao Universo sob olhar pachorro.

Não tenho muito tempo: Já a quilha 
Deixará de sulcar às ondas altas, 
Que se elevaram contra as minhas faltas.

Castigo ou não, resta a maravilha 
De saber quanto pôde o amor, por sorte, 
Ao me levar certeiro até a morte.

Betim - 15 12 2015