quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

O QUADRILÁTERO

O QUADRILÁTERO
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 O QUADRILÁTERO

Planalto de surreais ondulações
Feitas de itabirito, gnaisse e terra.
Onde houve ouro... E profundo ainda encerra
A grandeza de nossos corações.

Alto mirar os longes e os sertões
Enquanto se conquista o cume à serra.
Caminho a íngreme trilha em que se aferra
O pé ao chão; a vida às emoções...

Por isso, poeira e lágrimas nos olhos
Pondo um brilho mais forte nos olhares
A ver tanta beleza em sós lugares.

E surpreender estrelas lá aos molhos!
Quando, à noite, eu me deito n’um lajedo,
Sonhando sem dormir até bem cedo.

Brumadinho - 25 02 2015

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

TRANSEUNTES


TRANSEUNTES
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TRANSEUNTES

Quando eu de facto a vi, foi de relance:
Passava em frente e a porta estava aberta.
Era um dia quente e a vida, incerta;
Porém, lá estava eu ao seu alcance...

Personagens de página em romance
Ou, só e simplesmente, andava alerta?
Como a oportunidade que se oferta
Quando tudo parece além do alcance.

Eu a olhei ou ela que olhou para mim?
Só sei que nos olhamos e, por fim,
Vimos alguém que tínhamos-de ver.

Mas não entrei... Não soube rir de nós
Apenas dentro em mim ouvi-lhe a voz
Dizer-me a rir: -- ”Prazer em conhecer!”...

Betim - 23 02 2015

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

ESPELHO D’ÁGUA


ESPELHO D’ÁGUA
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ESPELHO D’ÁGUA

É belo, onde o palácio alto se espelha,
O modo como o narciso se debruça
Ao vento, em divertida escaramuça,
Sobre as águas d’alguma história velha.

Alvo leque à corola tão vermelha,
Suas pétalas têm algo que aguça
O olhar face à memória se esmiúça
A verdade que em tudo lhe assemelha.

Passeio pelo jardim que não possuo,
Muito embora me veja em quanto vejo
Se refletir à luz do meu desejo.

De sorte que a beleza que usufruo
Me dá sem eu ter tudo que preciso
Espelhando palácio, luz e narciso...

                          Betim - 19 02 2015




quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

BELAMENTE


BELAMENTE
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BELAMENTE 

Amar, embora há tempos me proponha:
-- “Melhor ter companhia à companheira!”
Eis a minha verdade verdadeira
Da qual não tenho orgulho nem vergonha.

Decerto uma história a ti bisonha,
Onde muita histeria faz fronteira...
Mas seja-me a memória derradeira
Quando minh’alma vã contigo sonha.

Não te quero amar por seres amável,
Sim porque quando fores mais odiável
Consiga eu ver em ti a minha amada.

Caso contrário, tu és uma amiga.
Outra cuja beleza se bendiga,
‘Inda que não me sirva para nada.

                        Betim - 10 02 2015

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

À PRIMEIRA VISTA

À PRIMEIRA VISTA
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À PRIMEIRA VISTA

Sim, eu quero te amar como se minha
Fosses por toda a vida, muito embora
Só te conheça há pouco mais d’uma hora
E sequer estivesses cá sozinha...

Chegando em ti eu nem sei porque vinha,
Mas confesso que já quero ir embora
Para, insolitamente, vermos lá fora
O quanto a tua boca me avizinha.

Se dissesse que te amo não mentiria,
Mesmo sem saber teu nome ou quem és:
Cuido que o Amor é cego ou vê de viés!

E deixo-me levar pela ousadia,
No avanço temerário onde o revés
Se oculta em luz de plena fantasia.


                      Betim - 08 02 2015

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

IDAS E VINDAS

IDAS E VINDAS 

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IDAS E VINDAS

Se quiseres que eu fique, não me mandes
Ir embora assim como quase nada
Tivesses feito p’ra eu seguir a estrada
Para após anos; para além dos Andes... 

Se fores me deixar, já não andes
Como quem não quer sair do lugar,
Na esperança vã d’eu ir te encontrar
N'uma distância que há tempos expandes.

Se não sabes que queres, não me queiras
À sombra de improváveis castanheiras
Defronte à tua casa te esperando.

Senão, tudo o que tens é tão-só ira...
A mesma que por vezes me ferira
E que me faz partir de quando em quando.

Betim - 05 02 2015

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

ÁGUA-FURTADA

ÁGUA-FURTADA 
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ÁGUA-FURTADA 

Aquela casa tem uma janela 
Que nunca vi aberta, muito embora 
O sol forte do lado cá de fora 
E a sua arquitetura a mim tão bela. 

Tantas vezes olhei fixo para ela 
E nunca vi pessoa, antes ou agora. 
Entanto, estranhamente me apavora 
Vê-la sempre fechada feito cela. 

O que esconde por seus vãos mais obscuros 
Ninguém lhe saberá fora-os-muros, 
Porquanto inescrutáveis sós segredos. 

Compreendo se esconder o que for feio, 
Mas a penumbra feita ao meu anseio 
São antes ignorâncias só de medos. 

               Betim - 01 02 2015