terça-feira, 27 de dezembro de 2016

O MONGE E A SERPENTE

O MONGE E A SERPENTE
prólogo
Contam que quando andava pela Terra
O iluminado espírito de Buda
Vivera em penitência surda e muda
Um monge seu ferido pela guerra.
Acolhido por Buda, mais se aferra
À sã meditação com que se escuda
A alma necessitada, pois, de ajuda
E que uma grande angústia em si encerra.
Aquele monge à paz se disciplina,
De sorte que mais nada o encoleriza,
Mesmo quando o tinhoso desatina.
Assim, quer na tormenta quer na brisa,
Seguia sempre o mesmo a sua sina
No carma que só seu mantra suaviza.
*  *  *
o carma
Na guerra, conduzira ele elefantes
Contra inimigos vindos de bem longe.
Nada, porém, de qu'ele se lisonje,
Sim o atormente todos os instantes.
Ferido após barbáries devastantes,
Decide, mudo e só, fazer-se monge...
A fim-de que da guerra mais se alonje
E o coração da sua vida d'antes.
À espera da impossível redenção,
Procura compensar sua violência
Com uma radical resolução:
-- "Enquanto eu respirar n'essa existência,
Nada mais morrerá por minha mão
Até de novo ter limpa a consciência."

*  *  *
o encontro
'Pós anos de silêncio e solidão,
Aquela alma culpada e penitente
Encontrara uma filha de serpente
Totalmente indefesa sobre o chão.
Tão fraca, o monge a pega com a mão
Quedando quase inerte simplesmente
Co'os olhos em seus olhos, frente a frente,
Sem esboçar a mínima reacção.
O monge a colocou em sua cesta
E a carregou consigo para fora
Da sempre tão quente e húmida floresta.
A todos no mosteiro ele apavora
Como se enfim tivesse má a testa
Em face da serpente n'aquela hora...
*  *  *
o primeiro juízo
Buda, que às boas almas conhecia,
Pede a palavra ao povo alvoraçado:
-- "Amigos, escutai cá do meu lado!
É necessário mais sabedoria..."
"Deixai-o co'a serpente noite e dia
Até que, por fim, todo o seu cuidado
Mostre-nos a que fora destinado
Isto o que só loucura parecia."
-- "Ouço e obedeço." -- disse-lhe um por um.
Assim o monge pôde co'a serpente
Viver essa vida um tanto incomum.
Por resto, ele vivia tão-somente
Como se fosse sem perigo algum
Aquela realidade surpreendente.
*  *  *
ophiophagus
Pelas selvas dos Gates orientais
Já na estação das chuvas das monções,
Cobras que comem cobras são vilões
D'estas tórridas terras tropicais.
Deveras, as imensas cobras reais
S'elevam tão ferozes quanto leões
E inoculam peçonha aos borbotões
Sobre maiores e mais fortes rivais.
Essa serpente, pouco antes que nasça,
É logo pela mãe abandonada
P'ros próprios filhos não haver por caça.
Ainda bem pequena é encontrada
Pelo silente monge, cuja graça
Acreditava ser por ela dada.
*  *  *
a iluminação
Dia após dia, o monge em seu cuidado
Alimentava a cobra presa ao cesto,
Trazendo camundongos que, de resto,
Ninguém mais parecia achar errado.
Tinha fé de que co'o tempo ao seu lado
Perderia ela instinto tão molesto
A ponto de entender do monge o gesto
E ter o seu furor pacificado.
Julgava que seria agradecida
Ao ser tratada com suma bondade
Ao longo já de toda a sua vida
E ele, se aproximava da verdade,
Por uma estrada então desconhecida
Cercado de total perplexidade.
*  *  *
o nirvana
Grande demais pr'o cesto em que vivia,
A serpente s'eleva toda ereta...
Em frente o monge jaz, silente e asceta,
A lhe encarar nos olhos, todavia.
Ameaçadoramente bela e esguia,
Já prepara seu bote por repleta
D'uma violência própria, pois abjeta
E tão diversa ao qu'ele  oferecia.
N'um átimo, ela voa em seu pescoço...
E crava as suas presas já tristonha
N'aquele qu'ela mata 'inda tão moço.
Após, ela inocula-lhe a peçonha
Que lhe faz já da morte abrir o fosso
E logo morrer como alguém que sonha.
*  *  *
o darma
Procuraram o Buda entristecidos
Seus discípulos mais a má serpente.
E pretendiam matá-la simplesmente
Depois dos factos já acontecidos.
Que, embora fossem bem esclarecidos
Sobre o valor de todo ser senciente,
Bradavam por justiça, mas somente
Buscavam a vingança dos perdidos.
E Buda disse: -- "Leva para a mata
A cobra ainda viva, com certeza!"
Mas os monges: -- "Jamais! É uma ingrata!!!"
Pagou tanta bondade com torpeza..."
E Buda: "Só segue ela a Lei inata:
Agiu conforme sua natureza!"
*  *  *
epílogo
“Estamos todos" -- Buda diz -- "sujeitos
À lei do Darma" (isto é, Lei Natural).
"Tanto um humano quanto um animal
Vive segundo seus sábios preceitos."
“E ainda que dotados de direitos,
Seres sencientes somos afinal.
A luz está em ver o próprio mal
Para então renunciar a seus malfeitos”
“Pois, mais que da serpente essa maldade
-- Na qual vedes traiçoeira ingratidão --
Havia sim desejo à liberdade!”
“Aos olhos da serpente, era prisão
Os cuidados do monge... E, a tal bondade,
A mais só e absoluta reclusão."
Betim - 20 02 2002

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

NO DIA DE SÃO NUNCA

NO DIA DE SÃO NUNCA

Ausente do corrente calendário,
Eis o dia que não há-de chegar!
Embora sem qualquer tempo ou lugar,
Ao findar todo extremo temerário.

Jogava para o Olvido incerto e vário
A obrigação difícil de se honrar,
Bem como a meta inviável de alcançar
E ainda assim nos ronda o imaginário.

São Nunca -- bom padroeiro dos tardios --
Postergai nossas dívidas e dúvidas
Diante de carrancudos tão sombrios.

Indefinidamente, o vosso dia
Seque as lagrimas sobre as íris úvidas
D’aquele que não nega, só adia...

Betim - 01 11 2003

ALCATEIA

ALCATEIA

Homens de meia idade, solitários,
Bebendo n'uma sórdida espelunca...
Divertem-se co'a tal polaca adunca,
Cujos culotes são extraordinários!...

Não têm mais ilusões, pelo contrário:
"Em canoa furada não se junca..."
Pois, livres -- antes tarde do que nunca! --
Se entregam ao instinto  perdulário.

Por álcool, fumo, drogas e mulheres
Descem a este inferninho de prazeres
Como lobos famintos rumo à caça.

Visto o cinismo qu'eles têm por guia,
Em meio a mais patética alegria,
Lhes faz rir de qualquer outra desgraça.

Belo Horizonte - 08 09 2004

LACÔNICO

LACÔNICO

Se mais tenho a dizer, menos eu falo,
Respondo tudo assim monossilábico...
E perco longe os olhos qual estrábico
Para não te encarar quando me calo.

Baixo a cabeça feito algum vassalo,
Cuja rainha, em olhar febril e rábico,
Me transporta do céu sétimo arábico
A este lugar de limbo; de intervalo...

Mas o pouco que falo, muito diz
E o silêncio que faço me é gritante
Do que cá me faria mais feliz.

Falo e calo d'amor quando bem diante
Dos olhos que nem sei se vãos ou vis
Me veem falar calado a cada instante.

Belo Horizonte - 18 12 2005

domingo, 25 de dezembro de 2016

NATAL DE JESUS

NATAL DE JESUS

Três sábios seguem uma estrela nova...
Vêm d'Oriente e atravessam o deserto.
Chegam a Belém  co'o designo certo
De ver o filho de Davi: --“Boa Nova!

“Nasceu Jesus, o ungido!!! Deus renova
Sua aliança... Eis a nós o céu aberto!
Jaz o menino entre as palhas desperto...
Acalme-se o mar! Um monte se mova!...”

Há dois mil anos contam essa história,
No regozijo d’uma Humanidade
Que o divino reveste então de glória.

Pois celebram os homens, em verdade,
No solstício com seu mistério antigo,
A alegria de ter Jesus consigo.

Betim - 24 12 2008

O FIM DOS TEMPOS

O FIM DOS TEMPOS

Andando taciturno pela rua,
Passou despercebido dos demais.
Talvez as vozes nem fossem reais
Tanto quanto a visão da última lua.

Sem embargo, para o alto continua
E, em face do que chama de sinais
Do avanço das potências infernais,
Proclama a profecia extrema sua:

-- "É hora: O fim dos tempos se aproxima...
Uma a uma já se cumprem as
promessas!
Volvei os vossos olhos para cima!..."

"Obscurecido por nuvens espessas, 
O sol agora dança logo acima
Até o céu nos cair sobre as cabeças."

Belo Horizonte - 09 09 1999

sábado, 24 de dezembro de 2016

MNEMÔNICA

MNEMÔNICA

De aliterações, rimas e assonâncias
A mente liga pontos e faz pontes,
Que há séculos e séculos são fontes
Para poetas contarem suas ânsias.

Assim, as milimétricas distâncias
Que por entre neurônios alguém conte
Nos têm a imensidão d'um horizonte
Após nos registrar tantas errâncias...

Espaço-tempo em si, nossas memórias
Parecem nos contar outras histórias
À medida que os anos têm passado.

Sem embargo, há-de ser a oralidade
Capaz de nos dizer toda a verdade
N'um verso febrilmente declamado.

Belo Horizonte - 25 01 2002

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

ORÁCULOS

ORÁCULOS

Segreda às pedras tuas sós verdades,
Enquanto a lua apenas acontece...
Ou senão a poesia -- oferta e prece --
Revelará dos deuses as vontades.

Não obstante, entre enigmas e obviedades,
Hás-de contar somente algo que expresse
O destino que todo homem padece
Iludido com suas liberdades.

Tu, sacerdotisa do profundo,
Assentada no umbigo d'este mundo
Poetizas os  desastres do porvir.

De vapores por fim entorpecida,
Teus versos profetizam morte e vida
Dos quais tantos em vão tentam fugir...

Belo Horizonte - 06 07 2002

A MANHÃ DE AMANHÃ

A MANHÃ DE AMANHÃ

Em meio às sombras de hoje eu me deito
À espera já das luzes de amanhã.
Sono e sonho engano por mal-sã
A angústia que ora agita cá meu peito.

Eu passo a noite em claro d'esse jeito,
Co'as horas indo ao encontro da manhã...
Embora saiba ser tamanho afã
De novo pelo amor mais-que-perfeito...

Não que me negue um só conhecedor
Da noite mais escura, todavia,
Vigílio a surpreender mais cedo o dia.

E tudo na esperança d'este amor,
Que a noite me proíbe -- longa já... --
E a manhã de amanhã enfim trará.

Belo Horizonte - 12 12 2005

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

QUIPROQUÓ

QUIPROQUÓ

Pois é... Há quem troque isto por aquilo,
Fazendo tempestade em copo d'água.
Turbilhão d'emoções ardem em frágua
Na vigília do espírito intranquilo!...

É fácil ver maldade n'um vacilo
Quem tem o coração já cheio de mágoa.
Após, em turvo rio ele deságua
E rompe igual barragem seu sigilo.

Ao se pressupor culpa, cai por terra
A ideia de que o inocente também erra,
Pois deve ser punido mesmo assim.

Quanto mais se defende, mais se acusa
Qualquer coitado diante da confusa,
Que julga em tudo sempre algo de ruim.

Betim – 19 12 2003

CODICILO

CODICILO

Pelo presente escrito a próprio punho
E com pleno poder das faculdades
Expresso as minhas últimas vontades
Com qu'eu, à morte, dou meu testemunho.

Deste modo, nos idos já de junho
Me vi sem esperanças nem verdades
Dispor do meu a alheias necessidades
Ao dar-me fé a tal póstumo cunho:

Minha mobília e roupas, podem doar
Meus anéis meu enterro hão-de pagar
Tão pouco me serviram quando vivo...

Meus versos, deixo a quem os souber ler
Mais os livros escritos sem saber
De vida e obra, por fim, qualquer motivo.

Contagem - 03 06 2004

DIATRIBES

DIATRIBES

Fala sem parar sem saber que diz.
Ofende, agride, grita, xinga, acusa,
Ironiza, especula, zoa, abusa...
E deita a falação com nomes vis...

Chegavam a ter dó d'este infeliz,
Apenas em silêncio face à obtusa
Pessoa que há horas se recusa
A entender os motivos do qu'eu quis.

Quando as palavras são para ferir,
Ter razão ou não muito pouco importa...
Quer-se antes fazer o outro desistir!

Amor só no papel é letra morta,
Pois, fala tudo e nada quer ouvir
Quem como o pior tirano se comporta.

Betim - 12 02 2003

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

URGÊNCIAS

URGÊNCIAS

Não tardes mais, amada, a vir me ver!
Depois de tantos anos tão ausente,
Voltaste à minha vida de repente
Para me confundir e me envolver?!

Duas vezes mais triste há-de viver
Aquele que algum dia foi contente...
Pudera eu encontrar-te novamente
Por mais felicidade e mais prazer.

Senão, todos os dias d'oravante
Serão por lamentar aquele instante
No qual me interrompeste a soledade:

Antes eu não sentia a tua falta;
Agora, teu sorriso aos olhos salta
N'um afã de esperança e de saudade.

Belo Horizonte – 30 12 2005

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

PAPO D'ALCOVA

PAPO D'ALCOVA

Vem!... Vamos fazer um amor gostoso?
Agora-aqui, juntinhos, eu e tu...
Deixa-me te admirar o corpo nu
Enquanto já me pedes outro gozo.

Mas meu corpo de ti tão desejoso
Faz te querer d'um jeito um tanto cru
Que te vira e revira igual lundu
E se derrete ao teu olhar dengoso...

Corpo de mulher; rosto de menina...
Hás-de drenar-me a seiva masculina
Até eu me perder dentro de ti.

Recebe meu prazer por teu prazer
E aceita o que melhor te parecer!
Juntinhos, eu e tu, agora-aqui.

Belo Horizonte - 12 12 2005

SUÇUARANA

SUÇUARANA

O cachorro latiu. Passou alguém?
Não vi nada e ninguém na madrugada
Andar de fronte à casa pela estrada.
Quer fosse alma d'aquém ou alma d'além.

O latido era forte e alto, porém. 
Fiquei a imaginar qualquer maçada:
Um paisano a pedir aqui pousada
Ou parente querendo algum vintém...

Lá fora estava um breu; noite sem lua.
Rebuliço de reses no curral
E algum vulto a cruzar todo o quintal.

Onça parda azulou na pedra nua,
Salpicando de sangue toda terra
Depois de molestar uma bezerra.

Sobrália - 07 07 2003

RAIO DE SOL

RAIO DE SOL

O pó que se acumula na mobília
Captura a luz na fresta da janela.
São milhões de corpúsculos aquela
Réstia a luzir tal-qual dourada trilha.

Percebo a rarefeita maravilha
Em fluidificada luz então mais bela,
Que lento movimento se revela
A olhos semicerrados em vigília.

A janela d'uma única bandeira
Deixava o sol entrar no quarto escuro
Espremido por tábuas de madeira.

Parecia o sol raiar assim mais  puro
Como quisesse já d'essa maneira
Me dar toda a alegria que procuro.

Inhapim - 12 09 2002

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

AUTÊNTICO

AUTÊNTICO

Valeu a pena ou não eu desistir?
Sou um infeliz menos infeliz...
Pois é: Já não lamento o bem que fiz
Ou tampouco o mal que me há-de vir.

Decidi de mim mesmo me despir
Para que, sem mais máscaras ou ardis,
Enfim pudesse ser tudo o que quis
Antes qu'eu acabasse de explodir.

Não quero ser melhor; quero só ser
Se a vida ao meu redor acontecer,
É qu'eu me permiti erros e acertos.

Gostem ou não de mim, sou o que sou.
A verdade é que sei aonde vou
Depois que em vão vaguei pelos desertos.

Betim - 10 12 2004



ADEUS

ADEUS

Toma a tua paixão e a tua alegria
E deixa que amanheça sobre ti.
Não há mais lugar para ira aqui
Agora que nos nasce um novo dia.

Madrugávamos sós já sem poesia...
No fim, nenhum de nós sequer sorri!
Sinto muito se em vão te aborreci:
Apenas quis uma outra fantasia.

Dúbios ou não, meus olhos trás-as-lentes
Te veem e te respeitam muito embora
A incompreensão que tens de mim agora.

Nem melhores nem piores: Diferentes.
Eu não te quero mal; não quero nada...
Segue na paz de Deus a tua estrada.

Betim - 20 03 2003

BÚSSOLAS

BÚSSOLAS 

O que norteia a agulha nos norteia 
Também a nós por essa imensa esfera,
Cujo campo magnético, a Ionosfera,
Há quem perceba como uma cadeia.

Dizem que até o sangue pela veia
Lhe sente a direção na qual impera.
Mas seja isso razão; seja quimera,
Algo que homem e Cosmo intermedeia.

Guiados por um comando bem remoto,
Tudo é executado com certa ordem,
Ainda que o motivo seja ignoto...

Assim veem superar caos e desordem
Por corações e mentes em controlo,
Qual agulha que aponta sempre o polo!

Betim – 19 12 2004

domingo, 18 de dezembro de 2016

RUA DA BAHIA

RUA DA BAHIA

De coração partido e olhar perdido,
Os solitários homens pós-modernos
Se vão ensimesmados com seus ternos
Rua acima conquanto sem sentido.

Sabem o que podia a vida ter sido
Mirando aqueles olhos verdes ternos...
Porém, nem infinitos nem eternos
Seus amores correm para o Olvido.

Pois se tempo é dinheiro bem contado,
Não deve se quedar desalinhado,
Enquanto vão seguindo rumo ao topo.

Só hão-de reparar no próprio nada
Na saideira, já alta madrugada,
Pouco antes de virar o último copo.

Belo Horizonte - 08 09 2004

sábado, 17 de dezembro de 2016

RETROGOSTO

RETROGOSTO

O gosto que me fica pela boca
Depois de te beijar perdidamente
Ainda permanece em minha mente,
Embora entorpecida e já meio oca.

Tua língua se à minha língua toca
Parece ora agridoce; ora adstringente...
O que jamais me deixa indiferente,
Antes mais me vicia e me provoca.

Beijos que como um vinho capitoso
Eu degusto com máximo prazer,
Ainda que me embriague d'esse gozo.

Quisera enfim n'um hausto te sorver
E sentir teu desejo assim gostoso
Aos poucos pela boca ir se perder.

Betim - 11 11 2006

ÊXODO RURAL

ÊXODO RURAL

Lembro que no meu tempo de menino
Uns finórios chamavam-nos de jecas.
Isso como se eles lessem bibliotecas
E tivessem de vera um gosto fino.

Bem cedo eu saí da roça... Um desatino!
Entre cabeças ocas, gentes secas...
Um lugar do qual não sabia necas
A não ser que era então o meu destino.

Cidade grande? Não... Periferias!
Em terras de demandas, carestias,
Onde de novo fui diminuído...

Tem sempre alguém achando-se melhor
Pois considera quase sem valor
Tudo o que não puder ser possuído.

Betim - 03 06 2003

SOL D'ESTIO

SOL D'ESTIO

É lindo quando o céu se abre à tarde
Após dias de chuva ininterrupta.
Parece uma alegria quase abrupta
D'esse sol que, a dourar nuvens, luz e arde.

Quiçá uma beleza assim atarde
Àquela solidão que vem inupta.
Tal como a fala estúpida e incorrupta,
Que se vê na coragem do covarde.

Ou ainda possa ter que d'esta hora
Se faça etérea e lúcida experiência
Quando a Natura em cores comemora.

Incline-se, por fim, em reverência
Minh'alma emocionada, muito embora
Acompanhe eu d'um rei a decadência.

Betim - 16 12 2016

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

PARUSIA

PARUSIA

E então quando voltar o Redentor
-- Qual fora visto há quase dois mil anos --
Há-de nos renegar os desenganos,
Para após nos julgar tão-só no amor.

Quando Jesus voltar, seja como for,
Trará luz aos espíritos humanos
Em face dos pesares quotidianos,
A saber, fome, guerra, doença, dor...

...E esse grande vazio! Venha a Glória
Ante o anúncio da sétima trombeta,
E finde enfim dos povos toda a História!

Ou não... D’entre as palavras do profeta,
Talvez promessa cuja só memória
Sempre para o porvir mais nos projeta...

Ubatuba – 24 12 1999

A CRUZ PARTIDA

A CRUZ PARTIDA

"Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reinado"
--  o bom ladrão.

Virá como um ladrão -- pois, escondido --
E verá confundida a humanidade.
Porque um tempo de grande obscuridade,
Em que o povo s’encontra dividido.

Então mesmo o cristão está perdido,
Ao clamar o Seu Nome em inimizade.
Porém, justo por zelo da Verdade,
Têm n’ela o coração endurecido!

Por Cristo, cristãos têm guerreado um a um:
Olho por olho e irmão contra irmão,
Mesmo sem chegar a lugar algum.

Encontrará não mais que desunião...
N’aqueles que tinham tudo em comum
E há tempos não se veem em comunhão.

Belo Horizonte – 20 11 1994                                    

DIAS DE QUARUPE

DIAS DE QUARUPE

É sol de sangue n'um pálido céu!
É tronco ornamentado preso ao chão!
É fazer memória! É celebração!...
É canto! É dança! É luta! É cor! Tropel!!!

... Há-que se nos pôr fim ao luto cruel
Em festa de reunir toda a nação.
Por deixar que nos fale ao coração
A alma que se despede do olhar fiel.

... Há-que se ter saudade sim. E, ainda,
Lembrar d’aquele a vida longa e linda
Que feito estrela pelo céu fulgura:

-- "Não lhe entristeça a nossa só tristeza,
Antes mantenha a chama sempre acesa,
A que nos seja luz na noite escura!"

Belo Horizonte – 06 05 1993

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

ASCENSÃO À ARUANDA

ASCENSÃO À ARUANDA

Na casa do Pai há muitas moradas,
E aqueles que na Glória têm vivido
Sabem que o amor impera sobre o Olvido,
Ao guiar o fiel por sete encruzilhadas.

Assim, ao se findarem as jornadas
D’este que agora cai desfalecido,
Verão o fiel, de tudo já despido,
S’elevar às alturas sublimadas!

Qualquer seja o destino dos finados,
Haverão-de deixar toda demanda,
Purgando-se do carma dos pecados.

Pois só na paz o espírito ainda anda
Até rever os Bem-aventurados
E habitar sob a luz santa de Aruanda.

Belo Horizonte – 02 11 1993

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

LUSA E BRASILEIRA

LUSA E BRASILEIRA

A lusa navega entre o tu e o você,
Cruzando todo o Atlântico: Alma e Oceano...
Mas maluca comete um ledo engano,
Pois, mameluca lá e cá se vê.

A lusa, sem que já saibam por quê,
S’enamora e amorena ano após ano.
Mestiça de ameríndio e de africano,
Eis-me a lusa cafuza n’um fuzuê!

De facto, uma mestiça mui preciosa:
Cor-de-cobre, descubro-a ainda presa
A seu jeito dengoso em tirar prosa.

Dos poetas a cantar sua beleza,
Sou mais um cuja pena caprichosa
Canta essa crioula língua portuguesa.

Belo Horizonte – 11 11 1991                

FÁTUO

FÁTUO

Para de me chamar! Não vou voltar...
Pois é: O que ficou está guardado.
Eu tão-somente não me sinto amado
E aqui nunca foi mesmo o meu lugar.

Pode até ser que tenha de passar
Como atravessa um raio de lado a lado.
Fui o que pude ser, o mais é Fado:
-- “Só lamento...” -- Mas não chego a chorar.

Deixa estar qu’eu ainda serei luz
Nas pupilas de tantos olhos nus,
Ainda que tão-só por um segundo.

Assim, revelar-se-á na escuridão
Das sombras de teu vago coração
Esse amor tão imenso e tão profundo.

Betim – 15 12 2010

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

EM BREVE

EM BREVE

Dá tempo ao tempo tu que te anseias tanto
E te angustias pelo que virá...
Seja medo d'alguma coisa má;
Seja esperança d'outro grande encanto.

Não, não te desanimes por enquanto.
Antes vê n'este instante tudo que há-
De mais emocionante a fazer já
Um verso que te sirva de acalanto.

Deixa que se esvaziem as palavras
E espalha mais sementes pelas lavras
Do desolado solo de teu peito.

Logo logo estarás de novo em paz
Apenas co'o viés que o tempo traz
De sempre mudar tudo do seu jeito.

Betim - 12 12 2008

domingo, 11 de dezembro de 2016

EM SEU NONE

EM SEU NOME

Sim, como todos sabem, Deus é UM;
Mas também evocado como Alá...
Ou Adonai, Elohim, Javé, Jeová...
Por Senhor... Coroaci...  Por Olurum...

Pois isso de crer em Deus é bem comum:
O Altíssimo Criador nos céus está
E, Omnipotente, tudo Ele nos dá
Mesmo sem termos mérito nenhum.

D'um modo ou d'outro, o mundo agora existe
E Deus, seja quem for, nos acompanha
N'essa fé a mover cada montanha...

Ignora-se se está feliz ou triste.
O facto é que em Seu Nome guerra e paz
Por séculos e séculos se faz.

Betim - 11 12 2009

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

MONUMENTÁLIA

MONUMENTÁLIA

Se os olhos viram já coisas demais,
Talvez a imensidão dos céus de Deus
Falasse um pouco mais aos olhos meus
Do que as cúpulas mais monumentais.

Ou as pedras de colunas colossais
Por onde vêm e vão os passos teus.
A balizar os mesmos pés plebeus
Distraída através de arcos triunfais...

Passo pela avenida secular
E contorno o obelisco grafitado
Enquanto assisto o tempo ali passar.

Ao largo, rememoro ‘inda o legado
D’aqueles que deixaram no lugar
Essa imensa presença do passado.

Belo Horizonte - 07 12 2008

A GENTE DA ROÇA

A GENTE DA ROÇA

Quando isso tudo aqui era sertão,
Uma cultura feita da Natura
Fazia a gente ver a vida dura
Como que a mais perfeita educação.

De facto, cá se aprende desde então
A não se carecer d'outra fartura
Que aquela que nos eitos se procura
E irrompe d'ouro verde em nosso chão.

A gente sabe que não sabe tudo...
Mas, mesmo sendo pouco o nosso estudo,
De atrevido rascunho alguns maus versos!...

Uma vez ou outra, a gente que é da roça
Se faz de cantador quase de troça
Para assuntar uns causos controversos...

Sobrália - 28 12 2009

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

GATA ANGORÁ

GATA ANGORÁ

Talvez tamborilasse uma angorá
Enquanto o sol ardia no telhado...
Imagino-a correr de lado a lado,
Mas sem saber de vera onde ela está.

Eu a escuto ora aqui; ora acolá,
Grunhir estranha e aflita o seu estado.
E ainda qu'eu me veja preocupado,
Aguardo tudo até ver no que dá.

Parece enfim que a gata se incomoda
Depois de circular a tarde toda
Bem leve e solta lá pela cumeeira.

Não tem jeito: Vou ter de pôr a escada!...
Só assim p'ra findar sua jornada
E resgatar a gata aventureira...

Betim - 07 12 2016

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

HAGIOGRAFIAS

HAGIOGRAFIAS
                               I
                                        são Francisco Xavier
Ir sempre mais além! Sempre mais longe!...
Por tocar de cada um o coração.
Que, se não faz a cruz bom o cristão,
Um hábito tampouco faz o monge.
Ide-vos! Passo a passo mais se alonje
Quem fostes n’uma antiga escuridão.
Para que, exercitados na oração,
Esta às máculas d’alma lave e esponje.
Tende por armas antes a bondade,
Onde a misericórdia vos transborde
Desde o peito uma real felicidade.
Com um júbilo uníssono de acorde,
Buscai com todos ter boa-vontade,
Fazendo-nos um mundo mais concorde.
*  *  *
                               II
                                     são Francisco de Assis
Marcaste-me, Jesus, com Tuas chagas.
Rasgas profundamente as minhas palmas
Mas mesmo assim, na dor após me acalmas,
Do que na solidão sempre me indagas.”
Bendigo o sangue, a angústia, o ardor, as pragas...
Caminho pelas trevas, mas me psalmas.
Pelas fadigas d’este mundo, às almas
Toda a luz que me deste não me apagas.
Porque ouvida a ordem Tua, a obedeci,
E visto sinal Teu, o acompanhei;
Vivendo-te a Paixão, eu renasci.
Perdido para o mundo, me ganhei;
Um trovador de Deus me conheci:
Teu amor arde em mim, e eu te sonhei.
*  *  *
                              III
                                  santo Antônio de Lisboa
Douto, tanto dos Céus quanto da Terra,
Tivera a sua língua incorrompida
Para mostrar na morte o que na vida
Fora d'hereges máquina de guerra.
Sem embargo, o carinho que 'inda encerra
Sua imagem por séculos querida
Do Menino-Jesus o fez guarida,
Como honra a quem ao lúcido se aferra.
Divina é a razão posta a serviço,
Cá dos homens que às cegas buscam Deus
E se perdem p'lo mundo com os seus.
Mais festeje este seu povo tudo isso:
Aquele que na Glória luz em feixes,
Após pregar Jesus até aos peixes.
*  *  *
        
                            IV
                                                  santa Bárbara
Há quem afinal clame pela santa
Sob o clarão dos raios de tempestade...
Quando de súbito uma claridade
Bem perto do vivente se agiganta.
Sua estupefacção então é tanta
Que mal se lembrará da autoridade
D'essa virgem e mártir que, em verdade,
Mais pelo exemplo e fé há tanto encanta.
Dos mártires é a alma iluminada.
Enquanto os olhos têm fitos em Deus,
Elevam-se, por fumo, para os céus.
Dos algozes a sorte está lançada...
Vãs as invocações feitas a Zeus:
Os raios do Tonante vingam os réus!
*  *  *
                                VI
                                                  são Sebastião
Mártir são Sebastião, crivado em setas,
Que estais atado a ramos tão agrestes
Para dar testemunho de fé a estes
Cuja violência contam os profetas,
Oh, vinde em nosso auxílio!  -- nós, os poetas --
Livrai-nos enfim d'estas negras pestes;
Seja o niilismo ou tédio... Prometestes
Iluminar às mentes sós e inquietas.
Curai o nosso escuro coração 
Sem vos curvar jamais favores, mimos...
Antes a mais perfeita contrição.
Trovadores do nada, vos pedimos:
Sede nosso advogado em intercessão
Contra o imenso vazio que sentimos.
*  *  *
                                VI
                                                    santa Cecília
Mas, entre o amor e as artes, Deus quem sabe...
Quando servi-LO é tudo o que deseja,
Oferta os seus talentos para a Igreja:
Põe música e poesia em quanto cabe.
Pouco importa que um dia o céu desabe
E leve embora amores ou o que seja,
Ela abençoa a mão que a apedreja,
Antes que a melodia à boca acabe.
Grande restauradora de canções,
Trouxera a voz dos anjos às prisões
Onde homens e mulheres esperando...
Eis a mais nobre força de tais  artes!
Não fazer esquecer de quando em quando,
Sim alumiar a dor em tantas partes.
*  *  *

VII
                                             santa Rita de Cássia
Aquela que olha pelos malcasados
Chora com eles dores também suas...
Pois têm, mesmo passadas tantas luas,
Ainda os sonhos vãos despedaçados.

Se na vida a dois tudo tem três lados,
Tanto um e outro se veem verdades cruas:
O mesmo amor que aquece as peles nuas
Depois lhes deixa os olhos marejados...

Há quem diga ser coisa do demônio
E a passionalidade igual maldade
Que lhes destrói família e patrimônio.

Isso faz admirável, em verdade,
Quem soubera fazer do matrimônio
Uma estrada de dor e santidade.
Betim - 10 11 1999



terça-feira, 6 de dezembro de 2016

BANHO DE BANHEIRA

BANHO DE BANHEIRA

Nua, faz que não vê meus olhos n'ela
Pois indo se banhar sem pressa alguma.
Cobre-se, do pescoço aos pés, de espuma:
Consegue d'algum modo ser mais bela...

De facto, mais esconde que revela
A neve branca que ora lhe perfuma.
Não fosse a aborrecer, uma por uma,
Eu sopraria as bolhas só por vê-la!

Em todo caso, é bom estar tão perto
E saber que seu corpo ali coberto
A mim se mostrará em esplendor.

E logo há-de ficar à flor da pele
Toda a sensualidade que a impele
A ser minha mulher e meu amor.

Betim - 02 03 2008

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

O HIPOCONDRÍACO

O HIPOCONDRÍACO

Percebo o coração quase infartado
Bater-me forte e surdo igual  parando
E o peito comprimido de já quando
A morte se insinua em meio ao Fado.

Serei tolo de não ver meu estado?
Se 'inda me consome o mal nefando,
Cujo remorso é toda uma vida... Ou ando
Negando ainda o pulso desritmado?...

É... O ser não é mais que reticente
Exame de sinais vitais que osculto:
Um corpo me sentindo tão-somente.

Por desgraça, talvez morra pouco antes
De começar a vida! E, de repente,
Sofrer de todo o mal d'alguns instantes...

Betim - 10 11 1999

IMPESSOAL

IMPESSOAL

Há tempos não se sabe ser pessoa,
Antes mais um que n’esse mundo nasce.
Quem, de automatismo, um sorriso à face,
Deixa, se muito, alguma impressão boa.

Há que existir em vão cara-coroa
A escolher-se o devir no qual se outrasse
N’alguém que só a si e por si faz-se
Mas, por duplipensar, ora impessoa...

Se a vida é movimento, há um sentido
Ou a existência seria sensação...
Chove e faz frio mas, o coração

É preciso manter entorpecido.
Já nem reconhece em meio ao olvido
A sua própria voz na multidão!...

Belo Horizonte – 10 12 1998

SILÊNCIOS

SILÊNCIOS

Não tenho olhos senão para os teus olhos...
Acredita-me, embora antigos medos:
Nossa história e seus tantos desenredos
Parecem conduzir-me sempre a escolhos...

Porém, como se espreitasse por ferrolhos,
Espio tolamente os vãos segredos,
Que guardas co'as lembranças  de anos ledos
Abandonados entre outros trambolhos.

Ou não... Silêncios só silêncios são!
Interpretá-los é, na escuridão,
Conseguir ver até o que se esconde.

Nada tem a dizer quem nada diz...
Eu só posso supor que estás feliz,
Buscando um lugar sem saberes onde.

Betim - 04 12 2016

domingo, 4 de dezembro de 2016

CONCORDES

CONCORDES

De acordo co'os acordes que te fiz,
Eu te acordo co'as cordas do violão
E te acovardo a dor do coração
N'um canto em cujo encanto és feliz.

Encorporado o ritmo, um aprendiz
Eu me faço no compasso da canção.
E, passo a passo, trago outra emoção
Tão certo quanto bem te quero e quis.

De cor o acorde, pois, acode e  acorda
Quando, a poesia e a música concordes,
Se faz canção que então o amor aborda.

Talvez assim de mim tu te recordes
Enquanto meu amor por ti transborda
Na harmonia de versos mais acordes.

Betim - 09 08 1993

BARROQUISTA

BARROQUISTA

Meus pré e pós conceitos questionados
Põem-me a nu a despeito dos costumes.
Quem, de mim contra mim, poéticos lumes:
Certos erros são mais que só errados...

Sim, se as imperfeições de tantos Fados
São matéria de poetas e outros numes,
Sobretudo aqui, face a serras, cumes...
Os olhos veem presentes os passados.

Meus gáudios pensamentos voam arcanjos
Ao espetac'lo barroco borromínico
Da mente a especular novos arranjos.

Atenho-me, no fim, ao estado anímico
Onde as pedras se põem em movimento
Nas volutas que a igrejas acrescento.

Ouro Preto - 12 10 1999

MORTAL

MORTAL

D'entre as horas da vida há a da morte
Destinada, dir-se-ia desde o gen.
Um instante que insólito nos vem
Certo apenas que nada mais importe...

Se do fio da vida faz o corte
Aquela que nos tece o mal e o bem
N'uma trama enredada vê também
Quem não escapará à adversa sorte.

O gozo dos momentos não me engana:
Apesar da quimera e da fortuna,
N'um sopro só se entrega uma alma humana!

Mas, afinal, a vida à morte se uma,
A fim-de que qualquer ser na hora dana
Saiba-se um grão de areia em meio a duna...

Betim - 07 07 1999

AMPULHETA

AMPULHETA

Não te demores, minha linda amante,
Em gozar no meu corpo os teus prazeres.
Os grãos da vida caem sobre os quereres
A ocultar-nos o amor de instante a  instante...

Não deixes de sentir no peito arfante
Um encanto maior vir sem o souberes
E aceita-me, mulher entre as mulheres,
Os meus olhos nos teus olhos bem diante.

O tempo que nos passa, todavia,
Parece correr mais rápido e em vão
Agora que te sei no coração.

Apressa-te! Ou senão nossa alegria
Permanecer-nos-á uma lembrança,
Enquanto cada grão de mim se lança...

Betim - 03 12 2016

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

FOGO MORTO

FOGO MORTO

O amor ardera até me reduzir
A cinzas de desejo ora apagado.
Qual engenho de fogo morto, o Fado
Fez-me ruína e pó sem mais porvir.

E o pouco que me resta é refletir
Sobre as contradições de meu estado...
Embora extinto o incêndio, rescaldado,
Meu corpo é calentura a ir e vir.

Levando-me a alegria e toda calma,
O amor ao me inflamar a essência d’alma
Esvaziara-me até a última gota.

Não vejo qualquer Fênix renascida
No sinistro que agora arrasa a vida.
Vejo apenas os campos da derrota...

Gov. Valadares - 31 03 1994

ATA-FINDA

ATA-FINDA

De que valeis, reveses d’amor? Brio,
Que enchendo o coração de vãos torpores,
Àquele que se busca novas dores
E sem calor de abraços, cai de frio

E somente se mente em desvario
Iludido por álcoois e vapores,
Enquanto chora triste os seus amores
Em versos transbordantes como rio...

...Ou frutas sobre a mesa maduradas
A exalar forte pela escuridão
Essências lentamente fermentadas,

Qual presença na ausência, vós em vão
Sabeis ter no presente horas passadas
Com ais que talvez nunca passarão.

Santa Bárbara - 30 09 1996

SOL E LUA

SOL E LUA

Quando n’um mesmo céu o sol e a lua
São vistos juntos pelo firmamento,
Admirado eu contemplo esse momento,
Que a minha pena agora perpetua:

O sol, cujo declínio se acentua,
Parece obscurecido e, em descontento,
Sofre da lua estranho enfrentamento
Como se a lhe depor da alteza sua.

Sombria, à Terra a lua eclipsa o sol.
Algumas horas antes do arrebol,
Vencia a lua ao sol que se desterra...

Não sei já se de noite ou se de dia,
Mais tarde um sol a lua parecia:
Sol de prata, o luar brilha sobre a Terra.

Belo Horizonte - 30 06 1992

CANTORIA

CANTORIA

— ”Apurai-vos a voz do coração
E ouvi todos vós! Vós todos ouvi!!
Até cada um ousar dar mais de si,
Cantando juntos uma só canção.”

“Seja nosso cantar celebração
De tudo o que nos trouxe até aqui.
Soe!... -- sem saber se chora ou se sorri --
E toda voz se eleve com emoção!”

“Contai, pois, cada sílaba do canto
Até que, espiritual, a melodia
Consiga s’espalhar de canto a canto...”

“Vossa expressão mais pura de alegria,
Rejubilai como anjos face ao Santo
N’um canto convertido em cantoria.”

Cap. Andrade – 04 03 1995

APALAVRADA (sic) RIQUEZA

APALAVRADA (sic) RIQUEZA

Quantas vezes, igual um avaro, eu
Contemplara poéticos tesouros?...
Em gavetas, prolíficos, meus ouros
Como as barcas do escravo do Pireu!

Eu sou alguém que a si mesmo colheu
Uma fortuna crítica sem louros
Aos versos que o Eu-Agora e os Eus-Vindouros
Têm diversos sentidos ao que é meu.

Mesmo os tendo por ouro verdadeiro,
Vos dou como alguém co'os bolsos furados
Deve andar por aí a perder dinheiro...

Se a vós ouro de tolo, validados
Foram não por quilates,  mas inteiro
O fiel onde meus eus serão pesados.

Betim - 04 07 1999

ÚLTIMA PARADA

ÚLTIMA PARADA

Estava triste sem saber por quê,
Apenas esperando o trem parar...
Um tanto distraído perco o olhar
A dizer-me ora “Não”; e ainda ”Sê!”

Algaravia dentro em mim se dê:
--“Não. Eu nunca estou onde quero estar...
Imagino e é sempre um outro lugar!...” --
Mas, desço do comboio igual clichê

Digno d’algum herói rocambolesco,
Que aos transes de ventura em vão padece,
Indo desde o sublime ao mais grotesco...

Já na estação, aos poucos escurece.
Minh’alma, n’um desgosto gigantesco,
Sequer sabe porque ora se entristece.

Belo Horizonte -15 02 1998

EM ABSTRACTO

EM ABSTRACTO

Pelo infinito pus meus pensamentos
Em cartesianos pares ordenados.
Onde inertes sistemas bem fechados
Eu os houvesse já sem incrementos.

Não me admira que em todos os momentos
Em face d’estes eus ali passados,
Reconheci-me rostos mascarados
A encenar-me d’outrem os movimentos.

-- “Meu Deus! Será que o meu eu é o meu?” --
Penso, sinceramente, se sou eu
Ou se sou de mim mesmo personagem...

Ou não... Não mais que alguém que se perdeu
Dentro de sua hermética mensagem
No espelho a refletir a própria imagem.

Belo Horizonte - 27 09 1998

PALAVREADO

PALAVREADO

Não me ponhas palavras pela boca,
Sem antes eu as ter no coração!
Tudo o que escrevo, com ou sem razão,
Eu senti... Mesmo quando em vão te choca.

Tem palavra que sempre me provoca
O afã de reviver uma emoção.
Outra, reluz em mim feito clarão
Tal a beleza qu'ela em si evoca.

Por isso tento ornar o palavreado,
Crente que na poesia cada termo
Me pareça a seu modo destacado.

Já nem reparo mais se velho e enfermo
Escrevo em linhas tortas o meu Fado...
Garimpo-me palavras n'algum ermo.

Ibirité - 27 11 2016

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

EM VERDADE

EM VERDADE

Houve na Grécia um sábio que, já velho,
Buscou-se o homem em si. Mas, reflexivo,
Ao se encontrar a essência em que era vivo
Escreveu: “CONHECE-TE”, n’um espelho.

Contam também de Cristo, no Evangelho,
Um novo mandamento compassivo:
Escrevera com sangue, redivivo,
Nos corações “AMAI-VOS”, de vermelho.

Tais verdades são uma só verdade,
Pois ainda que opostas na aparência,
Completam-se a buscar do ser consciência.

Sim, no amor conhecer-se a realidade
Do ser em relação sobre o vazio
De existências pendidas por um fio.

Belo Horizonte – 24 05 1998

EU E DEUS

EU E DEUS

Estávamos então sós, eu e Deus.
Caía a tarde sobre os dons despertos,
Quando me vi co’os olhos bem abertos
Fragmentado em miríades vis d’eus.

As máscaras quebradas, PERSONÆ meus,
Quedaram mudas entre sons incertos.
Habitava a amplidão, campos desertos,
Em soledade eu cria os signos Seus.

Assim, face a face -- não mais oblíquo --
Pude ver sem espelhos meu ser iníquo,
Que a si, miseramente, se perdeu...

Revelou-se em verdade -- antes longínquo --
Dentro de mim, o Eu-profundo e o Outro-Eu;
E, no próximo, o olhar do Galileu.

Belo Horizonte - 12 04 1998

AZUL-MAR

AZUL-MAR

Se o dia tem um sol à beira-mar
E o mar tem um azul a cada dia,
Por que meu coração já não podia
De teus olhos azuis s’enamorar?

Diz porquê da tristeza em teu olhar
Se só n’ele a tristeza é qu’eu perdia
Onde, no azul do céu, minh’alegria
Está em tudo qu’eu te sei mirar...

Seja-me teu olhar meu firmamento.
E mar e céu se espelhem tão-somente
Pelo horizonte d’esse sentimento.

Mas possam os meus olhos, frente a frente,
De teus azuis abrir velas ao vento
E navegar em ti de corpo e mente.

Salvador – 08 10 1995

RECÍPROCO

RECÍPROCO

Ama-me como te amo; isto é, faminto!
E o saber e o sabor de cada gesto
Sejam-nos um desejo manifesto
Por te sentires tal como me sinto.

Que nossos gozos como algo indistinto
Se misturem em nós ao que, de resto,
Possa servir ainda de pretexto
De mais nos permitirmos por instinto.

Beija-me como beijo a tua boca...
Toca-me como minha mão te toca
E sente como meu peito te sente.

Assim, por não mais que um momento,
Possamos ser os dois um só sentimento:
Ama-me como te amo, simplesmente.

Betim - 13 02 2009

LEMBRETE

LEMBRETE

Não te esqueças de mim quando te fores
E, longe, não escutes mais meus ais.
Lembra-te, pois, de mim uma vez mais,
Ao me leres os versos e os amores.

Recorda-me o cartão junto das flores,
Que com letras vermelhas passionais,
Sangrara versos vãos de amar demais,
Cantando em frenesi os teus louvores.

Não me esqueças nas sombras da memória
Onde, apesar de tudo, a nossa história
Restará entre outras, boa ou não.

Lembrar para esquecer e relembrar,
Talvez seja onde o amor tenha lugar
Para eu ficar em ti, no coração.

Belo Horizonte - 01 10 2009

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

PERSONÆ

PERSONÆ

Eu sou eu. Mas sou mais uns outros três:
Sou um fora de mim; dentro, outro alguém.
Livre espírito muito aquém e além...
Barro e sopro que máscara se fez.

Não sou nada. Nunca o serei talvez.
Ser? Eu sou TODO MUNDO e sou NINGUÉM;
Sou Eu-mesmo e Outros-Eus eu sou também.
Quem, um em um milhão, de dez em dez.

Ser aparência, essência e transcendência
É existir, o mais é inconsciência,
Em meio a pouca leitura e muita loa.

O esquisito escultor de tantas máscaras
Navegara preciso às obras pássaras
D’esse Super-Camões feito PESSOA.

Belo Horizonte – 02 03 1998

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

GRAVIDADE

GRAVIDADE

Enquanto o olhar se perde pelo abismo,
Me pego a meditar sobre o fracasso...
Mas que insabido imã me apressa o passo,
Se há muito me percebo só egoísmo?

Eu longe e longamente agora cismo
N’essas vãs perspectivas que a mim traço.
Pois bem, ecoem meus versos pelo espaço!
E quem escutar chame de lirismo...

Tal força que me tem prendido ao chão
Me impede de buscar a imensidão
Sobre aquela planície imensa e verde.

Talvez não seja a vida sempre assim...
Eu passo tempo até que caia em mim
Sem ver sequer por onde o olhar se perde.

Belo Horizonte – 20 06 1998

DE CUJOS

DE CUJOS

Aquele que serei quando morto,
De cuja sucessão eu trato agora,
Declarará de mim pela última hora
Tais termos a me dar algum conforto:

-- “Duvido que algum anjo, certo ou torto,
Tenha me acompanhado desde a aurora.
Ainda assim eu, antes de ir embora,
Sei chorar sangue como Jesus no horto!...”

“Não que essa minha angústia se compare,
Mas sim, depois de tudo, ‘inda repare
Ignorar quais propósitos tem Deus.”

“Deixo-vos, por herdade, o que couber
E o intento de a existência, por fim, ser
Vida que gera vida para os seus.”

Betim – 20 02 2008

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

ANTIMUSA

ANTIMUSA

Não me fales d'amor velhas mentiras;
As mesmas com que um dia me cegaste!...
Mais nunca o teu estandarte na minha haste
Tampouco os versos vãos que tu me inspiras.

Por ti, já não dedilham suas liras
Os poetas que, como eu, tu enganaste.
Não passa como novo um velho traste:
Esquece-me, conforme preferiras.

D'aquele amor, alguns poucos resquícios
Nos restem pelas poeiras dos caminhos
Enquanto prosseguimos tão  sozinhos.

Quiçá entorpecido em tantos vícios
Deixe de desejar-te d'uma vez,
Sem mais ceder à tua insensatez.

Betim - 20 12 2010

CATACLISMO

CATACLISMO

A tristeza é um vórtice de tornado,
Que suga tudo quanto existe em torno.
Onde uma imensa nuvem faz contorno
E avança ameaçadora pelo prado...

A tristeza é um peito desolado
Ao ver além partindo sem retorno
Toda a feliz memória e seu adorno,
D'um amor depois de anos bem guardado.

A tristeza é a viga pelo chão,
Cujo engenho não vence mais o vão,
Pois já todas as coisas às avessas.

A tristeza... Nada é como a tristeza.
Não, nenhuma pessoa sai ilesa,
Quando o céu nos desaba nas cabeças.

Belo Horizonte – 20 01 1998

TAUROMAQUIA

TAUROMAQUIA

Minh’alma, como o Palácio de Cnossos,
Seus interiores perde em labirinto.
Lá há muitos tesouros n’um recinto
Cercado de altos muros, fundos fossos...

Nas paredes, afrescos onde moços
Enfrentando de touros fero instinto.
Como se vida e morte, algo indistinto,
Fosse em face d’aqueles grãos colossos.

Por corredores, um monstro e um herói,
Disputam entre si luta inumana
Dos sombrios desvãos da mente insana.

Não mausoléu que tempo me destrói,
Sim a edificação onde busco eu
Ecos de Minotauro e de Teseu.

Belo Horizonte - 13 02 1998

UM OUTRO

UM OUTRO

É preciso cuidado com tais dias
Em que a tristeza chega devagar.
Se exacto quem escondo ouso encontrar
E me descubra um Outro em fantasias.

Porque se às já comuns melancolias
Vêm-me outras de carácter invulgar,
Sem qu’eu possa mais d’elas duvidar,
Como se quotidianas companhias.

Entretanto, eu a mim mesmo sofismo
A realidade pelos meus sentidos,
Ainda que me veja em sós olvidos.

Inconsciente e insensível, meu egoísmo
Posto ao limite já da sanidade,
Um Outro, ser sem ser, será verdade?

Belo Horizonte – 15 01 1998

sábado, 19 de novembro de 2016

HORA PASSADA

HORA PASSADA

A hora que passa fica em mim retida.
Inultilmente, pois mesmo assim, passa.
Como corpo sem alma, inerte massa,
A horas mortas uma hora a mais havida.

Soma-se às horas já vistas da vida
Essa hora minha sem graça ou desgraça.
Contra o tédio, poesia se me faça
Ou senão um bilhete de suicida...

Mas algo agora aqui me reconforta
Do vazio retido à hora passada
Na minha só tristeza natimorta.

O facto de passar é que me agrada.
Tê-la retida em mim pouco me importa,
Se sós somos, eu e a hora, o mesmo nada.

Belo Horizonte - 09 08 1996

RETIDÃO

RETIDÃO

A vida tinha a minha desolada:
Olhava e o olhar distante nada via...
Distante estava eu todo da alegria;
Na hora vazia, não havia nada.

Vi certo dia a vida toda errada;
O errado era eu ou nada errado havia.
-- "Tens a vida correta" -- alguém dizia,
Indo direto e reto pela estrada.

Sim, tinha a vida minha em linha reta...
Certo que bem mais longe iria andar,
Mas sozinho a caminho vã a meta.

Vazio o caminhar por caminhar.
Seja torto o caminho mais correto,
Ou, decerto, o caminho entortar.

Belo Horizonte - 19 11 1991

CERTOS ERROS

CERTOS ERROS

Se em buscar a verdade mais me alerto,
Eu sempre do correto me quis membro.
Contudo, erro por mim que não me lembro
Mais do tempo em qu'eu andei desperto.

Parte de mim do fim se sente perto;
Mas outra, além do bem e mal relembro:
Andara sob as chuvas de setembro
Pelos limites já do errado e certo

Eu me perdi tentanto defini-los,
Pois, vi o errado certo e certo errado,
Qual variações d'um tema sob estilos.

Não havendo n’um mundo tão  mudado
Mais qualquer verdade a dividi-los,
Certo e errado são um mesmo lado.

Belo Horizonte - 24 09 1991

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O NEFELIBATA

O NEFELIBATA

Se sua mente está nas nuvens altas,
Feliz é por todo o céu por sobre...
Vê razões que a Razão já não descobre
No desvario irreal de ideias incautas.

Às voltas sempre com culpas e faltas,
Vã-filosofava sobre algo mais nobre
Mas o que vê se a pálpebra ao olho cobre
Se lhe faz escrever pautas e pautas.

Habita a sua torre de cristal
Enclausurado como se algum monge
Cujo olhar perde cada vez mais longe.

Simbolisticamente, vive o Ideal.
E enquanto divagar seu pensamento
Segue peleando com moinhos de vento.

Belo Horizonte - 15 08 1995

PÁSSAROS DE PAPEL

PÁSSAROS DE PAPEL

Menino empina pipa em sol a pino,
Que alta se solta e salta ao léu.
Na hipérbole da linha, chega ao céu
Enquanto o vento a põe em desatino.

Poeta só de ver já se vê menino,
Tão imerso a andar de déu em déu.
Pois lhe colore os versos no papel
O brinquedo d'aquele pequenino.

O vento leva pipa e poeta longe...
Mais pipas vêm tosar com seu cerol
Que enchem de cor o céu da tarde ao sol

O tempo passa lá sem que se alonge:
"Descarrega!" E lá vai a rabióla...
Pássaros de papel, barbante e cola.

Betim - 07 10 1992

EM MIM

EM MIM

Caminho enquanto a noite principia
A escuridão em sombras de edifícios:
Cidade de terraços precipícios
A ondear morros junto à serrania...

Meu olhar, porém, quer que haja poesia
Ao amar tanto as virtudes quanto os vícios,
Enquanto aguarda fogos de artifícios
Violentarem seus céus com fantasia.

Há festa: Espocam rolhas pelas salas...
Canções ecoam nas ruas e outros riem
Se embriagando de luzes entre galas.

Mas, antes que os foliões me contagiem,
Deixo-me estar em mim algum lirismo
A ver tal panorama desde o abismo.

Belo Horizonte – 31 12 1995

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

NATURALIDADE

NATURALIDADE

Encontro-me nas ruas da cidade.
Lugar onde nasci e entre outras eu
Volto em busca d'um eu que se perdeu,
N'algum outro lugar, a identidade.

Ou não?! Eu sei quem sou eu na verdade:
Nem a cidade é minha nem o eu meu!
Somos, a cidade e eu, o que se deu
Onde e quando de mim meu ser evade.

A cidade se encontra agora aqui!...
Junto a meu nome a seu nome é o ideal
Da nobreza da terra onde nasci.

Como em lugar-comum tão especial,
Sou a cidade: Onde eu me conheci
E a honra d'eu d'ali ser natural.

Caratinga - 01 05 1995

TORRES

TORRES

Dormi, Princesa, em torres de marfim...
Sem sequer rir; sem dor dormir; sem nada.
Como se estátua apenas esboçada:
Carne a irromper do mármore por fim!...

Príncepes esperais d’além-jardim,
Por ver-vos, quintessência decantada!
Sei que das torres onde haveis morada,
Lançais encantamentos sobre mim.

Mas seja o meu cantar vosso acalanto;
Que embora letras cheias d'amor mundano,
Guarda d'anjos a música o amor santo.

Sois toda ideal, não carne, cerne humano...
Dormi, Princesa... Eu sob vosso encanto
Só com ais os ouvidos vos profano.

Ouro Preto - 01 05 1998

MÃO A MÃO

MÃO A MÃO

Não se traduz amor em poesia
Tanto quanto amizade enreda prosa...
A vida pode ser maravilhosa,
Se caminharmos juntos algum dia.

Dá cá a tua mão... Sê minha guia!...
Mesmo distante a aurora que o olhar goza,
Nossos passos na estrada pedregosa
Deixam pegadas p'la poeira vazia.

A vida apenas segue sem chegar;
A morte não é meta: Cerra o olhar!...
E andamos mão a mão até aqui.

O vento apagará rastros na estrada
E o mundo esquecerá nossa jornada,
Mas não me esquecerei nunca de ti

Betim - 23 05 1997

MULHER DO MEU PASSADO

MULHER DO MEU PASSADO

Mulher do meu passado veio em sonho:
Chora... Dizia amar-me mas partia.
E eu, pasmo de minha própria  apatia
Lhe sigo ao longe um longo olhar tristonho.

Acordo com presságio assim medonho
A reter cada imagem que fugia...
Seu porte senhoril; silhueta esguia...
Dos olhos o pesar ora suponho.

Não fixei feição ou face alguma.
Sequer lhe poderia haver, pois, nomeado!
De todas as mulheres, é nenhuma...

Mas quem?... Alguém que esteve do meu lado?!
Ou outra que o coração me desarruma:
Mulher que me deixou em meu passado.

Belo Horizonte - 12 02 1997

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

ANGELUS

ANGELUS

Anjo que me guardaste, bem ou não,
Uma outra vez me encontras tu magoado...
Já por males d'amor me vês prostrado;
De vez desenganado o coração.

Desces a meu inferno na intenção
De dar o lenitivo a este coitado.
Contudo, baldo é; porque mesmo errado
Amo o erro a que não quis dar correção.

Mea culpa; meu pecado... Pois, queria!
Afasta-te que em tais trevas existe
Dor que até tua luz ocultaria!!!

Deixa-me à soledade em que me viste!...
Volve, meu anjo, à mais santa alegria,
Antes que tu comigo vivas triste.

Betim - 30 05 1996

A RAINHA

A RAINHA

É muita audácia ousar ser tão feliz!
D'um egoísmo ainda maior amar!
Como pelo Mondego navegar
Oceanos de tristezas sob céu gris...

Uma fonte de lágrimas, meu país
Tornou-se eternas algas a sangrar
E ainda hoje meu pranto faz chegar
Às margens d'este rio d'águas vis.

O rio de hoje e a fonte de ontem... São
Do Estige essas águas! Mas que importa?
A vida é sonho e a noite imensidão...

E o beija-mão da Rainha? Inês é morta!
Manda aos maus arrancar o coração
A dor que nada nem ninguém conforta.

Belo Horizonte - 12 06 1996

MAIS-QUE-PERFEITO

MAIS-QUE-PERFEITO

Passara o tempo a mim mais que perfeito:
Pensara ser presente meu passado...
Desamassara um poema que, esboçado,
Revisitava o amor cá no meu peito.

Passara -- ou passará... -- o bem que afeito
Inscensara a mulher que por fado
Despedaçará em cacos de bom grado
Para após refazer o amor desfeito.

Parara o tempo em mim no pensamento;
No amar mais-que-perfeito qu'eu amara
E que pensara já no esquecimento.

Mas como haveria eu de esquecer Sara?
Mais que perfeito volta o sentimento,
Porque o amor é ferida... Que não sara!...

Betim - 06 06 1996

terça-feira, 15 de novembro de 2016

HISTÓRIAS DE AMOR

HISTÓRIAS DE AMOR

Disseram que se fosse por amor
D'algum modo haveria-de dar certo.
Acontece que à noite andei desperto
E tive da ilusão puro estupor...

Sejam belas mentiras ou o que for
Às artes amatórias eu, decerto,
Experienciei com ganas de experto.
Mas fui no fim um mal conhecedor...

Eu só por tentativa e erro aprendi
Que o amor não é feito de certezas
E pouca realidade tem em si.

Com efeito, entre sapos e princesas,
Amores são histórias sem igual,
Mas sem final feliz ou até moral...

Betim - 12 12 2010

FAZER O AMOR

FAZER O AMOR

Como fazer sensível algo abstracto
Senão como uma forma de carinho?
O toque em tua pele haja o caminho
Para unir duas carnes com um acto.

Pode ser dando sangue para o pacto
Ou apenas não querer gozar sozinho.
Teus beijos, tão mais doces do que o vinho,
Ao pôr as nossas almas em contacto.

Como é doce fazer o amor amando!
Como é bom em teus braços, quando em quando,
Eu poder sentir que amo e sou amado.

Por fim, o amor se faz encontro humano
Ao ser compartilhado, salvo engano,
Nos prazeres que um ao outro temos dado.

Betim - 15 02 2009

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

TESOURO DA JUVENTUDE

TESOURO DA JUVENTUDE

Os versos que escrevi quando mais moço
Releio agora um tanto comovido.
Confuso é lembrar quem soube eu ter sido
Sem me chocar o máximo que posso...

Havia dentro em mim muito alvoroço
Diante de cada verso revivido,
Por trazê-los de volta desde o olvido
Como se jóias no fundo d'algum poço.

Memórias imprecisas-mas-preciosas
-- Pois, mais que importantíssimos eventos
Contêm a descrição de sentimentos --

São, literariamente, pretenciosas...
Muito embora aos meus olhos valham ouro.
As obras juvenis d'esse tesouro.

Betim - 14 11 2016

UM QUARTO E UMA MEIA

UM QUARTO E UMA MEIA

Tua meia esquecida no meu quarto.
Olho no relógio: É meia noite e meia...
E já é outra a noite e a lua cheia
De cujo recordar jamais me farto.

O perfume, já por meio e um quarto,
É teu cheiro pelo ar que me permeia...
Dilata-se a pupila; estufa a veia;
De novo para aquela noite eu parto.

Brilho da lua em só noite de quarta...
Assim ora escureço; ora clareio
Para ti cada poema, foto ou carta.

No fim das contas, perco-me no enleio:
Dividido por zero ou posto à quarta?...
Será ser nada ser um par ao meio?

Betim - 22 12 2010

BEM-TE-VI

BEM-TE-VI

Surpreendera-me ao andar pelo telhado
Aquele passarinho mais singelo.
Tinha o peito retinto de amarelo
E cada olho de preto mascarado.

Esse mexeriqueiro só e alado
Vinha me acompanhar em meu desvelo:
Amanhencia o dia, bom e belo,
Quando ele veio cantar bem do meu lado.

Parecia inusitado a ele eu ali
Na altura do telhado; na alva aurora...
Admirando o nascer do sol em si.

Como a me denunciar, não ia embora;
Ficava repetindo: "Bem te vi!"
Só por estar do lado cá de fora...

Betim - 13 11 2016

domingo, 13 de novembro de 2016

SENHORA E DONA

SENHORA E DONA

Só faz de humano macho seu capacho
Aquela muito dona por mandona.
Rainha que ao coração d'alguém se entrona
N'um olhar verde gaio, mechas em cacho...

De quando em quando solta um esculacho
E o outro sua que nem em maratona,
Passado o tempo certo, ela o abandona,
Quiçá ainda mais bonita, eu acho...

E tudo se passou d'essa maneira:
Quem, entre interessada e interessante,
Se preferiu, por fim, interesseira.

Certo apenas que o Fado é inconstante,
Não foi a última e nem foi a primeira
Que uma Senhora e Dona fez-se amante.

Betim - 20 10 2010

sábado, 12 de novembro de 2016

MAL-DE-AMOR

MAL-DE-AMOR

Depois de misantrópicos desterros,
Volta de coração e olhos abertos
O amador a atravessar bairros desertos
Enquanto vai cantando a lua aos berros.

Grita não confessar nem posto a ferros
A secreta verdade dos espertos:
Saber mais importante que os acertos,
Viver a vida em todos os seus erros!

De coração é quanto tem em mente
Visto que amar não mais basta ao amador
E sim amar a dor que finge e sente.

Escolhe experienciar com todo ardor,
Sob pena de sofrer amargamente,
Dos males o maior, o mal-de-amor.

Belo Horizonte – 13 02 1996

A MULHER DO PRÓXIMO

A MULHER DO PRÓXIMO

Todo o tempo, amigo, há-que estar atento
Face àquela mulher que se apresenta
Como um sol que ao nascer nos desorienta
E põe a terra e os céus em movimento...

Ela é algum fenômeno violento,
Semelhante a ciclones ou tormenta.
Porém, depois serena ela aparenta
Sempre a nos contestar o sentimento:

-- "Amor não é amor sem correr riscos!" --
Pontifica com sua voz mais forte
E alheia às próprias traves vê meus ciscos...

Amando indiferente à vida e à morte,
Essa mulher me deixou na pele viscos,
No mal de desejar d'outro a consorte.

Belo Horizonte  - 02 01 2006

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

SILOGÍSTICO

SILOGÍSTICO

Outro amor que finda antes de iniciar,
Tem nada mais que o fim como premissa.
Tal como o archote cujo ardor se atiça 
Apenas para logo se apagar.

Já caídos, porém, por mal-de-amar,
Não deixamos de medo e até preguiça...
Onde o en'amoro que em vão se desperdiça
Qual tesouro no fundo d'algum mar.

Se o nosso amor carece de futuro
Tanto quanto lamenta do passado,
Não parece estar n'ele o que procuro.

Ainda assim, sem lógica ou verdade,
Conclui-se ao silogístico enuciado
Ter n'outro lugar-comum felicidade!...

Belo Horizonte - 02 06 1996

AO TACTO

AO TACTO

Há-que se tocar quando o amor nos cega...
Ter na palma da mão o coração
Ao se sentir em meio à escuridão,
Pele a pele, onde o peito se aconchega.

Mas se maior o calor, melhor a entrega;
Têm-se à pele em altíssima tensão,
De modo que a esta intensa sensação,
Palmo a palmo, já a carne não sossega.

Apalpar para os olhos pôr à palma,
Pois ao tocar sentir pelo corpo a alma,
Tendo o carinho apenas como guia...

Sempre encontrem um no outro tais delícias
Os amantes que entregues às carícias
Se permitem ao tacto a fantasia.

Betim – 05 05 1995

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

ESTAÇÃO DAS ÁGUAS

ESTAÇÃO DAS ÁGUAS

N’uma noite qualquer de primavera,
Tanajuras revoando pelos ares
Anunciam as chuvas por tornares
À terra que mais úmida se houvera.

Tu desde criança sabes que, de vera,
O voo d’aquelas rainhas invulgares
Espalhadas por todos os lugares
Tem um quê de alegria e de quimera.

Hoje, enxames de içás em profusão
Vêm me desanuviar o coração
Enquanto à brisa tépida te inspiras.

Leva contigo as minhas fantasias
E as lembranças de criança que querias
Conhecer tal-e-qual um dia ouviras.

Sobrália – 10 11 2008

PARABÉNS!!

PARABÉNS!!

Se não soubesses ser eu o teu poeta,
Talvez até a ti surpreenderia
Ter tua sereníssima alegria
Como fotografia predileta.

O telegrama em mãos d'um estafeta
Do meu amor por ti mais te diria.
Ou ainda um ramalhete ao fim do dia
Te celebre a conquista d'essa meta.

Do jardim dos meus anos, a mais linda
Flor entre as flores, cuja boa vinda
Nos traz pura beleza desde os gens.

Por ti possam se abrir de novo os céus,
A que recebas este e outros troféus:
-- "Felicidades, linda! Parabéns!! "

Belo Horizonte - 11 12 1991

PEDIDO DE NOIVADO

PEDIDO DE NOIVADO

Procuro-te a mulher por trás do véu
A ver-te face a face tal como és.
E é por isso que agora eu, aos teus pés,
Peço clemência por confesso réu.

Tentei pôr por escrito no papel
Cada lance de sorte e de revés
Do romance que somos, através
De versos que anteviram esse anel:

-- "Meu bem querer, recebe-me esta aliança
Que às nossas vidas tragam d’oravante
Outro brilho d’amor e de esperança."

"Possa enfim ecoar por teu peito amante
O meu “eu te amo” eterno na lembrança
Ao fazer o próprio ouro mais brilhante."

Betim – 20 12 1997

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

O ALCOÓLATRA

O ALCOÓLATRA

Os anos que passaram pelo espelho
Branquearam minha barba e meus cabelos...
Bem como pelos peitos alvos pelos
Recobriram-me a pele vil de velho.

E por vezes me dói tanto o meu joelho,
Que mal sei dar aos pombos uns farelos.
Noites inteiras passo entre desvelos,
Enquanto um esporão brota no artelho...

Pois é... Olheiras fundas, carnes moles...
Mais a papada, pintas, manchas, rugas...
E as mãos cheias de calos e verrugas.

Uma vida passada toda aos goles,
Para no fim, tão pobre quanto  Jó,
Entregar minhas cãs de volta ao pó...

Belo Horizonte - 20 09 2009

FLERTES

FLERTES

Só de longe; de longo e oblíquo olhar
Tenho eu te conhecido... Olhos furtivos
Que ficam te admirando os atrativos,
Conquanto seja tolo ou até vulgar.

De facto, não tem hora nem lugar
Para perdido em teus olhos tão vivos
Eu tenha por fim meus olhos captivos
Por força já de tanto eu te mirar.

Dona, porém, de meus olhos e olhares
Não me percebes todo este cuidado
Com que, em silêncio, eu tenho te amado.

Tudo isso saberás quando me olhares...
Ou não... Se tão altiva quanto o sol,
Que ignora a devoção d'um girassol...

Belo Horizonte - 21 10 1992

domingo, 6 de novembro de 2016

DE BOCA EM BOCA

DE BOCA EM BOCA

Pois como sabem Deus e todo mundo,
Palavras loucas, só orelhas moucas...
Loucuras d'amor clamam quase roucas
As aluadas segundo após segundo:

-- "Há astros a luzir no céu profundo
Em conjunções que ensejam visões loucas."
Mesmo suas estrelas sendo poucas,
Veem nas fases da lua algo fecundo.

E trocam simpatias, sortilégios,
Feitiços de paixão, poções d'amor...
Tirando-se lhe a sorte em seu favor.

De boca em boca espalham seus colégios
Onde ensinam as artes amorosas
Que fazem as mulheres perigosas.

Betim - 13 05 1993

AMAZONAS

AMAZONAS

Nuas, as duas belas se entreolharam,
Entregues aos prazeres mais proibidos.
Na embriaguez de desejos escondidos.
Admiradas de si, elas se amaram.

Logo os lábios das lésbias se tocaram
E seus mamilos muito intumescidos
Como se figos alvos bem crescidos
Uma à outra, dulcíssimos, beijaram.

Orvalhados os sexos, já arfantes
Se trocavam carícias delirantes
Com ardores e gozos inclementes.

Amazonas, guerreiras do amor,
Cavalgam-se com tríbade furor,
Até, enfim, quedarem inconscientes...

Belo Horizonte - 09 07 1993

CÂNFORA

CÂNFORA

Toda a casa cheirava à choro e vela
Ou uma d'essas fragrâncias vãs de empório.
Como se ainda há pouco algum velório
Onde a sala faz vezes de capela...

Mas o cheiro que enchia a casa d'ela
Parecia mesmo algo merencório.
Ainda que com modos de finório,
Postando-se de pé junto à janela...

Eram duas figuras solitárias:
Ela, com os seus santos e seus mortos;
Ele, com sua culpa e desconfortos...

Assim, face a figuras tão contrárias,
Sentira eu a tarde toda, bem ou não,
De cânfora, um odor de solidão.

Inhapim - 05 11 2016

sábado, 5 de novembro de 2016

RODOVIA BR 116

RODOVIA BR 116

Os ônibus que partem para longe
Saem já de madrugada no sereno.
À noite, em meio às horas, me apequeno
Ainda que a vidraça outrem esponge.

Mas na hora da partida, feito um monge,
Reze todo um rosário por ameno
E saiba que se faça a mim mais pleno
A mesma imensidão que nos alonge.

De facto, na distância, ando tão só...
Mesmo que me reserve só por dó,
Amar aqueles olhos já perdidos.

Não obstante, há os ônibus e horários...
Os caminhos insistem, mas tão vários,
Que me levem além d'esses olvidos!

Inhapim - 04 11 2016

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

O CONVITE

O CONVITE

Corro os olhos p'la folha amarelada
Onde há anos um nome está escrito.
Mas tanto tempo faz! Mal acredito
N'aquela letra ali tão bem traçada.

Recordo-me da carta não enviada
E de seu estupor quase infinito
Que a mim, tão desolado quanto aflito,
Deixou sem qu'eu pudesse mudar nada.

Dez anos se passaram... E, de novo,
Eu e ela estivemos face a face,
Sem que se houvesse fim àquele impasse.

D'esse convite ainda eu me comovo,
Após ver como um erro permanece
No coração de quem jamais o esquece.

Belo Horizonte - 09 11 2006

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

FINADOS

FINADOS

Já recolhido ao quarto de dormir
Aguardo o sono vir com outro sonho.
Considero 'inda o tempo que disponho
Entre as luas d'agora e as do porvir.

Meus olhos se ressentem de insistir
Em antever na noite algo bisonho:
Quando da juriti o roar tristonho
Através dos sertões se faz ouvir.

A hora passa sem qu'eu nem me aperceba...
Não importa o que dê ou que  receba
O amor não era mesmo para ser...

E o sono traga o sonho simplesmente
Sem pensar no que venha pela frente
Permita tão-somente eu me esquecer.

Sobrália - 02 11 2010

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

A OLHOS VISTOS

A OLHOS VISTOS

Havia acontecido uma mudança:
Os dois já não se viam com ternura.
Veem, da vida passada e da futura,
Uma a uma  se frustrar cada esperança.

Perdidos o respeito e a confiança
Restara um dia a dia de amargura
Onde a dor se avizinha da loucura,
Apagando do bem qualquer lembrança.

Testemunham após o pior de si
Como se não houvesse mais ali
Nem sombras da alegria que os unira.

E o amor, agonizando ora a olhos vistos,
Morreria ao menor dos imprevistos,
Como tivesse sido uma mentira.

Betim - 09 11 2009

terça-feira, 1 de novembro de 2016

DESARVORADO

DESARVORADO

A despeito dos nomes tão pomposos
Ou das palavras belas e sensatas,
Nada mascara mais suas ingratas
Razões para iludir os desditosos.

Sempre co’os ditos mais espirituosos
Nos repete historietas e bravatas,
Por fazer crer que tem luzes inatas,
Ocultando interesses duvidosos.

Quem guindado às alturas do poder,
Faz, absolutamente, o que bem quer
Enquanto o embasbacado tudo aplaude.

Seja este só mais um desarvorado,
Que quando do palanque for apeado
Não faltará já outro que lhe malde.

Betim – 01 10 2009

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

VICE-VERSA

VICE-VERSA

Este muito diverso ser humano,
Andando tão disperso pelo mundo,
Já aceita o Universo moribundo,
Sem ser sequer um terço de seu plano...

Vê o bem converso em desengano
Torná-lo seu reverso n’um segundo.
Oculta em prosa e verso o mais profundo,
Como se desde o berço assim mundano.

No momento adverso, ele se altera
E feito outro (um perverso!) mais se admira
Do modo controverso que o fizera.

Mas já de todo imerso ao que conspira,
É da medalha o anverso o que se vira:
Ser o inverso do inverso do que era.

Belo Horizonte – 29 09 2009

domingo, 30 de outubro de 2016

O GRANDE INQUISIDOR

O GRANDE INQUISIDOR

exórdio 

N'um acesso de cólera, há quem fique 
Bem diante da verdade, sem saída.
Qual quisesse apagar a nossa vida 
Do Livro dos Eleitos ou onde a indique. 

Não admira se acaso pontifique: 
-- "Sois a pior coisa já acontecida!" -- 
Ele tão-só computa em sua lida 
A gota d'água p'ra romper o dique... 

Após prisão estúpida e arbitrária,
Logo ele nos acusa, por má sina,
Nos máximos rigores da Doutrina. 

Por fim, nos silencia a mente vária, 
Negando-nos o humano patrimônio 
Como fôssemos piores que o demônio. 

*        *        *

invectiva

-- “Ai de vós! Credes em códigos de classe
E vos permitis do ódio instrumento.
Juiz obtuso, dais ao erro provimento,
Qual claro dia em trevas se tornasse.”

“Talvez não verdes danos n’este impasse,
Ou, obscuramente, n’ele haveis alento.
A inépcia ocultais com descaramento,
Malgrado o próprio mal se horrorizasse."

“Por quem sois! Deitai fora tais tiranos
Que constrangem a agir com vilania
E ora vos detêm, cúmplice de enganos.”

“Sei que nos odeiam por nossa ousadia.
Mas vós, que haveis com eles, que planos?
Que abuso à vossa cátedra impedia!?”

*        *        *

falácias

-- “Oras, oras... Vós-outros bem sabeis
A gravidade toda d’estes factos.
Não obstante, pensais que ainda intactos
Vossos direitos face a nossas leis?”

“Rebeldes à autoridade, conviveis
Entre conspirações, tramas e pactos.
Fugis às consequências dos maus actos,
Inimigos dos reinos e dos reis!
 
“Lesais a coisa pública, entretanto,
Ao combater os próceres do Estado
Assim como o Direito sacrossanto.”

“Crime de Lesa-Pátria... Um atentado
Autofágico e infame a ser punido
Co’o máximo rigor reconhecido.

*        *        *

réplica e tréplica

— “Dai-me algo por provar vossa inocência!   
Falai-me ao menos!”— Diz o Inquisidor.   
"Eu estou desolado" — acho...  — "Ou melhor,   
Lamento, mas não falo à esta audiência".   

"Malgrado não me acuse ora a consciência,   
Nada tenho a dizer em meu favor”.    
Ele diz: — “Mas que pena! Tanto pior!   
Se vos resta implorar tão-só clemência”...   

“Eu só penso que vós não haveis dito 
O que dizeis, não fosse indefensável   
A verdade d’um homem já proscrito”. 

— “Eu sei. Deveras, tudo isso admirável!   
A minha vã verdade eu acredito   
Ser-vos não falsa, sim insuportável”.  

*        *        *

ex-cathedra

— “No ano da graça de Nosso Senhor,
Compareceram diante d’esta Sede
Senhores cuja morte se nos pede
O venerável Grande Inquisidor.

Ouvida cada parte em seu favor,
Julgamos que o recurso que concede
A suspensão da pena não procede,
Devendo os réus cumprirem o mal maior.

O fogo purifique vossas almas
E em meio às labaredas subam calmas,
Qual bode que expiatório com óleo  unta-se.

Este é o parecer; é meu juízo:
Purificai-vos para o paraíso!
Publique-se, registre-se e (enfim...) cumpra-se.

Betim - 20 11 2004

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

FLUORESCÊNCIAS

FLUORESCÊNCIAS

P'ra todos os efeitos, nossos dias
São feitos de confusas descobertas.
Escrever torto por linhas incertas
Tem sido uma infindável alegria.

Juntar os meus versos em poesia,
Mantendo o coração e a mente alertas,
Eleva aos deuses ávidas ofertas
Incensadas de plena fantasia.

Brilhar no escuro é para muito poucos...
Mas sorrir na tristeza é para os loucos
Que como eu atravessam madrugadas.

Sejam as nossas rimas florescências
Onde a mínima luz faz de existências
Aventuras insãs do nada ao nada.

Betim - 28 10 2016

ALEGRO

ALEGRO

Amanhece e já canta o passarinho
A sua melodia docemente.
Paro para ouvi-lo, displicente,
Enquanto repetia o meu caminho.

Música ou não, aquele barulhinho
Era algo assim tão terno e tão dolente
Que soía fazer cócegas na mente
Tal a alegria em seu trinar sozinho.

Dou-me conta ao escutá-lo que feliz
É quem percebe a música de tudo,
Entendendo o que cada coisa diz.

Pouco importa se a ouvir aves me iludo,
Todo imerso d'encantos infantis,
Eu atravesso a rua e a vida mudo...

Betim - 28 10 2016

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

ROLA-MOÇA

ROLA-MOÇA

panorama

Mas de que maravilha estão falando?
Não por acaso nunca vimos ter
Com verdades passadas, a saber:
A questão já nem mais é quanto, é quando!

Pássaros que revoam longe em bando,
Enquanto olhos insistem só em ver...
Qual claridade buscas conhecer
Na névoa muito além se dissipando?

Pensa n’isso como se um desabafo
Ainda que tardio, qual tatuado
Em poesia que à flor da pele grafo.

É bem verdade que essa vista acalma.
Mesmo porque os abismos têm ecoado
A história antepassando por minh’alma.

* * *

toponímia

Os prosaicos versos andradinos
D’aquela afamada vinda a Minas
Passam ora por minhas retinas
À luz de nossos tão tristes destinos.

Com efeito, tal-qual dois peregrinos
Subimos e descemos as colinas
Até que em meio às névoas matutinas
Nos surpreendera o sol nos picos finos.

A moça a rolar pela pirambeira
E o noivo que a seguiu na galopeira
Somos nós dois agora-aqui sozinhos.

Na fé de que também um grande amor
De vida, morte, encanto, sonho e dor
Encontra-e-desencontra-nos caminhos...

Brumadinho – 06 02 2006

CHEGAR O AMOR

CHEGAR O AMOR

A ti, possa chegar o amor o quanto antes.
Que chegue cedo -- antes cedo do que tarde! --
Não permitas que d’ele eu me acovarde
E que tudo não dure mais que instantes.

Quando chegar o amor, já sendo amantes
Saibamos reavivar a chama que arde
E reconsiderar sem muito alarde
Aquilo que nos tem posto distantes.

Cedo ou tarde, chega à hora que bem quer...
Quer sim; quer não, o amor é um mistério:
Tudo e todos submete ao seu império!

Sejamos, pois, só homem e mulher
N’esse encontro humano ora tão lindo.
E o amor, quando chegar, será bem-vindo.

Belo Horizonte - 15 09 1994

terça-feira, 25 de outubro de 2016

O PECADOR

O PECADOR

Têm meus olhos a exacta e vã medida
Da extensão da maldade que há no mundo.
Executei-e-sofri o mal, fecundo
Foi seu lavrar por toda a minha vida

Anos de mocidade à inadvertida
Experimentação do que é imundo!
Busquei sempre prazer, poço sem fundo,
Atrás d'uma beleza corrompida...

A esconder-me do bem, relativizo.
Até que se me impôs, sem prévio aviso,
A minha volta triste e maltrapilho.

Mas espero, por fim, não por meu mérito,
Sim pelo amor d'Aquele cujo inquérito,
Far-me-á, embora pródigo, seu filho.

Betim - 02 11 2008

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

AGRADOS

AGRADOS

Deixa-me te agradar; te agradecer.
Apenas um carinho, um mimo, um verso...
Ir me aventurar por teu universo
Sem levar uma bússola sequer...

Cada recanto teu vou conhecer
Por recolher teu mel longe disperso
E quando eu estiver em ti imerso
Eu sinta tua essência me envolver.

Deixa-me te fazer só um agrado;
Eu te dar um pouquinho do que sou
E sentir teu calor cá do meu lado.

O melhor do que tenho é que te dou:
Amor que só existe p'ra ser dado!
Amor que só tem quem já muito amou!

Betim - 24 10 2016

NOVEMBRADAS

NOVEMBRADAS

Não sei se alguém está contando os dias,
Só sei que mês que vem fará um ano...
O tempo passa sempre soberano
E indistinto a tristezas ou alegrias.

Dez anos se passaram nas sombrias
Horas em que nós -- não sem perda e dano --
Vivemos plenos esse encontro humano
Que uns chamam amor; outros, agonias...

Novembros têm sido aqueles meses
Nos quais por repetidas-mas-vãs vezes
Acontecem chegadas e partidas.

Hoje, a questão sequer é ser feliz,
Sim ir aonde aponta ora o nariz:
Tão-somente seguirmos nossas vidas.

Betim - 02 10 2016

domingo, 23 de outubro de 2016

EXISTÊNCIA

EXISTÊNCIA

N'uma vida de mais erros que acertos
Atravessei os anos do Milênio.
Contudo, sucumbi ao meu mau gênio
Em face da clareza dos expertos.

Tão-só mantive os olhos bem  abertos
Para o drama encenado no proscênio.
Mais carente d'amor que de oxigênio,
Só encontrei espíritos desertos...

Assim cheguei ao ponto de duvidar
Que me houvesse de facto algum lugar
Onde eu possa levar em paz a vida.

Drama ou não, continua um teatro o mundo.
Existindo, eu tento, erro e me confundo,
Mas atraso um pouco a hora da partida...

Betim - 08 08 2008