segunda-feira, 28 de novembro de 2016

EM VERDADE

EM VERDADE

Houve na Grécia um sábio que, já velho,
Buscou-se o homem em si. Mas, reflexivo,
Ao se encontrar a essência em que era vivo
Escreveu: “CONHECE-TE”, n’um espelho.

Contam também de Cristo, no Evangelho,
Um novo mandamento compassivo:
Escrevera com sangue, redivivo,
Nos corações “AMAI-VOS”, de vermelho.

Tais verdades são uma só verdade,
Pois ainda que opostas na aparência,
Completam-se a buscar do ser consciência.

Sim, no amor conhecer-se a realidade
Do ser em relação sobre o vazio
De existências pendidas por um fio.

Belo Horizonte – 24 05 1998

EU E DEUS

EU E DEUS

Estávamos então sós, eu e Deus.
Caía a tarde sobre os dons despertos,
Quando me vi co’os olhos bem abertos
Fragmentado em miríades vis d’eus.

As máscaras quebradas, PERSONÆ meus,
Quedaram mudas entre sons incertos.
Habitava a amplidão, campos desertos,
Em soledade eu cria os signos Seus.

Assim, face a face -- não mais oblíquo --
Pude ver sem espelhos meu ser iníquo,
Que a si, miseramente, se perdeu...

Revelou-se em verdade -- antes longínquo --
Dentro de mim, o Eu-profundo e o Outro-Eu;
E, no próximo, o olhar do Galileu.

Belo Horizonte - 12 04 1998

AZUL-MAR

AZUL-MAR

Se o dia tem um sol à beira-mar
E o mar tem um azul a cada dia,
Por que meu coração já não podia
De teus olhos azuis s’enamorar?

Diz porquê da tristeza em teu olhar
Se só n’ele a tristeza é qu’eu perdia
Onde, no azul do céu, minh’alegria
Está em tudo qu’eu te sei mirar...

Seja-me teu olhar meu firmamento.
E mar e céu se espelhem tão-somente
Pelo horizonte d’esse sentimento.

Mas possam os meus olhos, frente a frente,
De teus azuis abrir velas ao vento
E navegar em ti de corpo e mente.

Salvador – 08 10 1995

RECÍPROCO

RECÍPROCO

Ama-me como te amo; isto é, faminto!
E o saber e o sabor de cada gesto
Sejam-nos um desejo manifesto
Por te sentires tal como me sinto.

Que nossos gozos como algo indistinto
Se misturem em nós ao que, de resto,
Possa servir ainda de pretexto
De mais nos permitirmos por instinto.

Beija-me como beijo a tua boca...
Toca-me como minha mão te toca
E sente como meu peito te sente.

Assim, por não mais que um momento,
Possamos ser os dois um só sentimento:
Ama-me como te amo, simplesmente.

Betim - 13 02 2009

LEMBRETE

LEMBRETE

Não te esqueças de mim quando te fores
E, longe, não escutes mais meus ais.
Lembra-te, pois, de mim uma vez mais,
Ao me leres os versos e os amores.

Recorda-me o cartão junto das flores,
Que com letras vermelhas passionais,
Sangrara versos vãos de amar demais,
Cantando em frenesi os teus louvores.

Não me esqueças nas sombras da memória
Onde, apesar de tudo, a nossa história
Restará entre outras, boa ou não.

Lembrar para esquecer e relembrar,
Talvez seja onde o amor tenha lugar
Para eu ficar em ti, no coração.

Belo Horizonte - 01 10 2009

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

PERSONÆ

PERSONÆ

Eu sou eu. Mas sou mais uns outros três:
Sou um fora de mim; dentro, outro alguém.
Livre espírito muito aquém e além...
Barro e sopro que máscara se fez.

Não sou nada. Nunca o serei talvez.
Ser? Eu sou TODO MUNDO e sou NINGUÉM;
Sou Eu-mesmo e Outros-Eus eu sou também.
Quem, um em um milhão, de dez em dez.

Ser aparência, essência e transcendência
É existir, o mais é inconsciência,
Em meio a pouca leitura e muita loa.

O esquisito escultor de tantas máscaras
Navegara preciso às obras pássaras
D’esse Super-Camões feito PESSOA.

Belo Horizonte – 02 03 1998

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

GRAVIDADE

GRAVIDADE

Enquanto o olhar se perde pelo abismo,
Me pego a meditar sobre o fracasso...
Mas que insabido imã me apressa o passo,
Se há muito me percebo só egoísmo?

Eu longe e longamente agora cismo
N’essas vãs perspectivas que a mim traço.
Pois bem, ecoem meus versos pelo espaço!
E quem escutar chame de lirismo...

Tal força que me tem prendido ao chão
Me impede de buscar a imensidão
Sobre aquela planície imensa e verde.

Talvez não seja a vida sempre assim...
Eu passo tempo até que caia em mim
Sem ver sequer por onde o olhar se perde.

Belo Horizonte – 20 06 1998

DE CUJOS

DE CUJOS

Aquele que serei quando morto,
De cuja sucessão eu trato agora,
Declarará de mim pela última hora
Tais termos a me dar algum conforto:

-- “Duvido que algum anjo, certo ou torto,
Tenha me acompanhado desde a aurora.
Ainda assim eu, antes de ir embora,
Sei chorar sangue como Jesus no horto!...”

“Não que essa minha angústia se compare,
Mas sim, depois de tudo, ‘inda repare
Ignorar quais propósitos tem Deus.”

“Deixo-vos, por herdade, o que couber
E o intento de a existência, por fim, ser
Vida que gera vida para os seus.”

Betim – 20 02 2008

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

ANTIMUSA

ANTIMUSA

Não me fales d'amor velhas mentiras;
As mesmas com que um dia me cegaste!...
Mais nunca o teu estandarte na minha haste
Tampouco os versos vãos que tu me inspiras.

Por ti, já não dedilham suas liras
Os poetas que, como eu, tu enganaste.
Não passa como novo um velho traste:
Esquece-me, conforme preferiras.

D'aquele amor, alguns poucos resquícios
Nos restem pelas poeiras dos caminhos
Enquanto prosseguimos tão  sozinhos.

Quiçá entorpecido em tantos vícios
Deixe de desejar-te d'uma vez,
Sem mais ceder à tua insensatez.

Betim - 20 12 2010

CATACLISMO

CATACLISMO

A tristeza é um vórtice de tornado,
Que suga tudo quanto existe em torno.
Onde uma imensa nuvem faz contorno
E avança ameaçadora pelo prado...

A tristeza é um peito desolado
Ao ver além partindo sem retorno
Toda a feliz memória e seu adorno,
D'um amor depois de anos bem guardado.

A tristeza é a viga pelo chão,
Cujo engenho não vence mais o vão,
Pois já todas as coisas às avessas.

A tristeza... Nada é como a tristeza.
Não, nenhuma pessoa sai ilesa,
Quando o céu nos desaba nas cabeças.

Belo Horizonte – 20 01 1998

TAUROMAQUIA

TAUROMAQUIA

Minh’alma, como o Palácio de Cnossos,
Seus interiores perde em labirinto.
Lá há muitos tesouros n’um recinto
Cercado de altos muros, fundos fossos...

Nas paredes, afrescos onde moços
Enfrentando de touros fero instinto.
Como se vida e morte, algo indistinto,
Fosse em face d’aqueles grãos colossos.

Por corredores, um monstro e um herói,
Disputam entre si luta inumana
Dos sombrios desvãos da mente insana.

Não mausoléu que tempo me destrói,
Sim a edificação onde busco eu
Ecos de Minotauro e de Teseu.

Belo Horizonte - 13 02 1998

UM OUTRO

UM OUTRO

É preciso cuidado com tais dias
Em que a tristeza chega devagar.
Se exacto quem escondo ouso encontrar
E me descubra um Outro em fantasias.

Porque se às já comuns melancolias
Vêm-me outras de carácter invulgar,
Sem qu’eu possa mais d’elas duvidar,
Como se quotidianas companhias.

Entretanto, eu a mim mesmo sofismo
A realidade pelos meus sentidos,
Ainda que me veja em sós olvidos.

Inconsciente e insensível, meu egoísmo
Posto ao limite já da sanidade,
Um Outro, ser sem ser, será verdade?

Belo Horizonte – 15 01 1998

sábado, 19 de novembro de 2016

HORA PASSADA

HORA PASSADA

A hora que passa fica em mim retida.
Inultilmente, pois mesmo assim, passa.
Como corpo sem alma, inerte massa,
A horas mortas uma hora a mais havida.

Soma-se às horas já vistas da vida
Essa hora minha sem graça ou desgraça.
Contra o tédio, poesia se me faça
Ou senão um bilhete de suicida...

Mas algo agora aqui me reconforta
Do vazio retido à hora passada
Na minha só tristeza natimorta.

O facto de passar é que me agrada.
Tê-la retida em mim pouco me importa,
Se sós somos, eu e a hora, o mesmo nada.

Belo Horizonte - 09 08 1996

RETIDÃO

RETIDÃO

A vida tinha a minha desolada:
Olhava e o olhar distante nada via...
Distante estava eu todo da alegria;
Na hora vazia, não havia nada.

Vi certo dia a vida toda errada;
O errado era eu ou nada errado havia.
-- "Tens a vida correta" -- alguém dizia,
Indo direto e reto pela estrada.

Sim, tinha a vida minha em linha reta...
Certo que bem mais longe iria andar,
Mas sozinho a caminho vã a meta.

Vazio o caminhar por caminhar.
Seja torto o caminho mais correto,
Ou, decerto, o caminho entortar.

Belo Horizonte - 19 11 1991

CERTOS ERROS

CERTOS ERROS

Se em buscar a verdade mais me alerto,
Eu sempre do correto me quis membro.
Contudo, erro por mim que não me lembro
Mais do tempo em qu'eu andei desperto.

Parte de mim do fim se sente perto;
Mas outra, além do bem e mal relembro:
Andara sob as chuvas de setembro
Pelos limites já do errado e certo

Eu me perdi tentanto defini-los,
Pois, vi o errado certo e certo errado,
Qual variações d'um tema sob estilos.

Não havendo n’um mundo tão  mudado
Mais qualquer verdade a dividi-los,
Certo e errado são um mesmo lado.

Belo Horizonte - 24 09 1991

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O NEFELIBATA

O NEFELIBATA

Se sua mente está nas nuvens altas,
Feliz é por todo o céu por sobre...
Vê razões que a Razão já não descobre
No desvario irreal de ideias incautas.

Às voltas sempre com culpas e faltas,
Vã-filosofava sobre algo mais nobre
Mas o que vê se a pálpebra ao olho cobre
Se lhe faz escrever pautas e pautas.

Habita a sua torre de cristal
Enclausurado como se algum monge
Cujo olhar perde cada vez mais longe.

Simbolisticamente, vive o Ideal.
E enquanto divagar seu pensamento
Segue peleando com moinhos de vento.

Belo Horizonte - 15 08 1995

PÁSSAROS DE PAPEL

PÁSSAROS DE PAPEL

Menino empina pipa em sol a pino,
Que alta se solta e salta ao léu.
Na hipérbole da linha, chega ao céu
Enquanto o vento a põe em desatino.

Poeta só de ver já se vê menino,
Tão imerso a andar de déu em déu.
Pois lhe colore os versos no papel
O brinquedo d'aquele pequenino.

O vento leva pipa e poeta longe...
Mais pipas vêm tosar com seu cerol
Que enchem de cor o céu da tarde ao sol

O tempo passa lá sem que se alonge:
"Descarrega!" E lá vai a rabióla...
Pássaros de papel, barbante e cola.

Betim - 07 10 1992

EM MIM

EM MIM

Caminho enquanto a noite principia
A escuridão em sombras de edifícios:
Cidade de terraços precipícios
A ondear morros junto à serrania...

Meu olhar, porém, quer que haja poesia
Ao amar tanto as virtudes quanto os vícios,
Enquanto aguarda fogos de artifícios
Violentarem seus céus com fantasia.

Há festa: Espocam rolhas pelas salas...
Canções ecoam nas ruas e outros riem
Se embriagando de luzes entre galas.

Mas, antes que os foliões me contagiem,
Deixo-me estar em mim algum lirismo
A ver tal panorama desde o abismo.

Belo Horizonte – 31 12 1995

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

NATURALIDADE

NATURALIDADE

Encontro-me nas ruas da cidade.
Lugar onde nasci e entre outras eu
Volto em busca d'um eu que se perdeu,
N'algum outro lugar, a identidade.

Ou não?! Eu sei quem sou eu na verdade:
Nem a cidade é minha nem o eu meu!
Somos, a cidade e eu, o que se deu
Onde e quando de mim meu ser evade.

A cidade se encontra agora aqui!...
Junto a meu nome a seu nome é o ideal
Da nobreza da terra onde nasci.

Como em lugar-comum tão especial,
Sou a cidade: Onde eu me conheci
E a honra d'eu d'ali ser natural.

Caratinga - 01 05 1995

TORRES

TORRES

Dormi, Princesa, em torres de marfim...
Sem sequer rir; sem dor dormir; sem nada.
Como se estátua apenas esboçada:
Carne a irromper do mármore por fim!...

Príncepes esperais d’além-jardim,
Por ver-vos, quintessência decantada!
Sei que das torres onde haveis morada,
Lançais encantamentos sobre mim.

Mas seja o meu cantar vosso acalanto;
Que embora letras cheias d'amor mundano,
Guarda d'anjos a música o amor santo.

Sois toda ideal, não carne, cerne humano...
Dormi, Princesa... Eu sob vosso encanto
Só com ais os ouvidos vos profano.

Ouro Preto - 01 05 1998

MÃO A MÃO

MÃO A MÃO

Não se traduz amor em poesia
Tanto quanto amizade enreda prosa...
A vida pode ser maravilhosa,
Se caminharmos juntos algum dia.

Dá cá a tua mão... Sê minha guia!...
Mesmo distante a aurora que o olhar goza,
Nossos passos na estrada pedregosa
Deixam pegadas p'la poeira vazia.

A vida apenas segue sem chegar;
A morte não é meta: Cerra o olhar!...
E andamos mão a mão até aqui.

O vento apagará rastros na estrada
E o mundo esquecerá nossa jornada,
Mas não me esquecerei nunca de ti

Betim - 23 05 1997

MULHER DO MEU PASSADO

MULHER DO MEU PASSADO

Mulher do meu passado veio em sonho:
Chora... Dizia amar-me mas partia.
E eu, pasmo de minha própria  apatia
Lhe sigo ao longe um longo olhar tristonho.

Acordo com presságio assim medonho
A reter cada imagem que fugia...
Seu porte senhoril; silhueta esguia...
Dos olhos o pesar ora suponho.

Não fixei feição ou face alguma.
Sequer lhe poderia haver, pois, nomeado!
De todas as mulheres, é nenhuma...

Mas quem?... Alguém que esteve do meu lado?!
Ou outra que o coração me desarruma:
Mulher que me deixou em meu passado.

Belo Horizonte - 12 02 1997

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

ANGELUS

ANGELUS

Anjo que me guardaste, bem ou não,
Uma outra vez me encontras tu magoado...
Já por males d'amor me vês prostrado;
De vez desenganado o coração.

Desces a meu inferno na intenção
De dar o lenitivo a este coitado.
Contudo, baldo é; porque mesmo errado
Amo o erro a que não quis dar correção.

Mea culpa; meu pecado... Pois, queria!
Afasta-te que em tais trevas existe
Dor que até tua luz ocultaria!!!

Deixa-me à soledade em que me viste!...
Volve, meu anjo, à mais santa alegria,
Antes que tu comigo vivas triste.

Betim - 30 05 1996

A RAINHA

A RAINHA

É muita audácia ousar ser tão feliz!
D'um egoísmo ainda maior amar!
Como pelo Mondego navegar
Oceanos de tristezas sob céu gris...

Uma fonte de lágrimas, meu país
Tornou-se eternas algas a sangrar
E ainda hoje meu pranto faz chegar
Às margens d'este rio d'águas vis.

O rio de hoje e a fonte de ontem... São
Do Estige essas águas! Mas que importa?
A vida é sonho e a noite imensidão...

E o beija-mão da Rainha? Inês é morta!
Manda aos maus arrancar o coração
A dor que nada nem ninguém conforta.

Belo Horizonte - 12 06 1996

MAIS-QUE-PERFEITO

MAIS-QUE-PERFEITO

Passara o tempo a mim mais que perfeito:
Pensara ser presente meu passado...
Desamassara um poema que, esboçado,
Revisitava o amor cá no meu peito.

Passara -- ou passará... -- o bem que afeito
Inscensara a mulher que por fado
Despedaçará em cacos de bom grado
Para após refazer o amor desfeito.

Parara o tempo em mim no pensamento;
No amar mais-que-perfeito qu'eu amara
E que pensara já no esquecimento.

Mas como haveria eu de esquecer Sara?
Mais que perfeito volta o sentimento,
Porque o amor é ferida... Que não sara!...

Betim - 06 06 1996

terça-feira, 15 de novembro de 2016

HISTÓRIAS DE AMOR

HISTÓRIAS DE AMOR

Disseram que se fosse por amor
D'algum modo haveria-de dar certo.
Acontece que à noite andei desperto
E tive da ilusão puro estupor...

Sejam belas mentiras ou o que for
Às artes amatórias eu, decerto,
Experienciei com ganas de experto.
Mas fui no fim um mal conhecedor...

Eu só por tentativa e erro aprendi
Que o amor não é feito de certezas
E pouca realidade tem em si.

Com efeito, entre sapos e princesas,
Amores são histórias sem igual,
Mas sem final feliz ou até moral...

Betim - 12 12 2010

FAZER O AMOR

FAZER O AMOR

Como fazer sensível algo abstracto
Senão como uma forma de carinho?
O toque em tua pele haja o caminho
Para unir duas carnes com um acto.

Pode ser dando sangue para o pacto
Ou apenas não querer gozar sozinho.
Teus beijos, tão mais doces do que o vinho,
Ao pôr as nossas almas em contacto.

Como é doce fazer o amor amando!
Como é bom em teus braços, quando em quando,
Eu poder sentir que amo e sou amado.

Por fim, o amor se faz encontro humano
Ao ser compartilhado, salvo engano,
Nos prazeres que um ao outro temos dado.

Betim - 15 02 2009

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

TESOURO DA JUVENTUDE

TESOURO DA JUVENTUDE

Os versos que escrevi quando mais moço
Releio agora um tanto comovido.
Confuso é lembrar quem soube eu ter sido
Sem me chocar o máximo que posso...

Havia dentro em mim muito alvoroço
Diante de cada verso revivido,
Por trazê-los de volta desde o olvido
Como se jóias no fundo d'algum poço.

Memórias imprecisas-mas-preciosas
-- Pois, mais que importantíssimos eventos
Contêm a descrição de sentimentos --

São, literariamente, pretenciosas...
Muito embora aos meus olhos valham ouro.
As obras juvenis d'esse tesouro.

Betim - 14 11 2016

UM QUARTO E UMA MEIA

UM QUARTO E UMA MEIA

Tua meia esquecida no meu quarto.
Olho no relógio: É meia noite e meia...
E já é outra a noite e a lua cheia
De cujo recordar jamais me farto.

O perfume, já por meio e um quarto,
É teu cheiro pelo ar que me permeia...
Dilata-se a pupila; estufa a veia;
De novo para aquela noite eu parto.

Brilho da lua em só noite de quarta...
Assim ora escureço; ora clareio
Para ti cada poema, foto ou carta.

No fim das contas, perco-me no enleio:
Dividido por zero ou posto à quarta?...
Será ser nada ser um par ao meio?

Betim - 22 12 2010

BEM-TE-VI

BEM-TE-VI

Surpreendera-me ao andar pelo telhado
Aquele passarinho mais singelo.
Tinha o peito retinto de amarelo
E cada olho de preto mascarado.

Esse mexeriqueiro só e alado
Vinha me acompanhar em meu desvelo:
Amanhencia o dia, bom e belo,
Quando ele veio cantar bem do meu lado.

Parecia inusitado a ele eu ali
Na altura do telhado; na alva aurora...
Admirando o nascer do sol em si.

Como a me denunciar, não ia embora;
Ficava repetindo: "Bem te vi!"
Só por estar do lado cá de fora...

Betim - 13 11 2016

domingo, 13 de novembro de 2016

SENHORA E DONA

SENHORA E DONA

Só faz de humano macho seu capacho
Aquela muito dona por mandona.
Rainha que ao coração d'alguém se entrona
N'um olhar verde gaio, mechas em cacho...

De quando em quando solta um esculacho
E o outro sua que nem em maratona,
Passado o tempo certo, ela o abandona,
Quiçá ainda mais bonita, eu acho...

E tudo se passou d'essa maneira:
Quem, entre interessada e interessante,
Se preferiu, por fim, interesseira.

Certo apenas que o Fado é inconstante,
Não foi a última e nem foi a primeira
Que uma Senhora e Dona fez-se amante.

Betim - 20 10 2010

sábado, 12 de novembro de 2016

MAL-DE-AMOR

MAL-DE-AMOR

Depois de misantrópicos desterros,
Volta de coração e olhos abertos
O amador a atravessar bairros desertos
Enquanto vai cantando a lua aos berros.

Grita não confessar nem posto a ferros
A secreta verdade dos espertos:
Saber mais importante que os acertos,
Viver a vida em todos os seus erros!

De coração é quanto tem em mente
Visto que amar não mais basta ao amador
E sim amar a dor que finge e sente.

Escolhe experienciar com todo ardor,
Sob pena de sofrer amargamente,
Dos males o maior, o mal-de-amor.

Belo Horizonte – 13 02 1996

A MULHER DO PRÓXIMO

A MULHER DO PRÓXIMO

Todo o tempo, amigo, há-que estar atento
Face àquela mulher que se apresenta
Como um sol que ao nascer nos desorienta
E põe a terra e os céus em movimento...

Ela é algum fenômeno violento,
Semelhante a ciclones ou tormenta.
Porém, depois serena ela aparenta
Sempre a nos contestar o sentimento:

-- "Amor não é amor sem correr riscos!" --
Pontifica com sua voz mais forte
E alheia às próprias traves vê meus ciscos...

Amando indiferente à vida e à morte,
Essa mulher me deixou na pele viscos,
No mal de desejar d'outro a consorte.

Belo Horizonte  - 02 01 2006

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

SILOGÍSTICO

SILOGÍSTICO

Outro amor que finda antes de iniciar,
Tem nada mais que o fim como premissa.
Tal como o archote cujo ardor se atiça 
Apenas para logo se apagar.

Já caídos, porém, por mal-de-amar,
Não deixamos de medo e até preguiça...
Onde o en'amoro que em vão se desperdiça
Qual tesouro no fundo d'algum mar.

Se o nosso amor carece de futuro
Tanto quanto lamenta do passado,
Não parece estar n'ele o que procuro.

Ainda assim, sem lógica ou verdade,
Conclui-se ao silogístico enuciado
Ter n'outro lugar-comum felicidade!...

Belo Horizonte - 02 06 1996

AO TACTO

AO TACTO

Há-que se tocar quando o amor nos cega...
Ter na palma da mão o coração
Ao se sentir em meio à escuridão,
Pele a pele, onde o peito se aconchega.

Mas se maior o calor, melhor a entrega;
Têm-se à pele em altíssima tensão,
De modo que a esta intensa sensação,
Palmo a palmo, já a carne não sossega.

Apalpar para os olhos pôr à palma,
Pois ao tocar sentir pelo corpo a alma,
Tendo o carinho apenas como guia...

Sempre encontrem um no outro tais delícias
Os amantes que entregues às carícias
Se permitem ao tacto a fantasia.

Betim – 05 05 1995

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

ESTAÇÃO DAS ÁGUAS

ESTAÇÃO DAS ÁGUAS

N’uma noite qualquer de primavera,
Tanajuras revoando pelos ares
Anunciam as chuvas por tornares
À terra que mais úmida se houvera.

Tu desde criança sabes que, de vera,
O voo d’aquelas rainhas invulgares
Espalhadas por todos os lugares
Tem um quê de alegria e de quimera.

Hoje, enxames de içás em profusão
Vêm me desanuviar o coração
Enquanto à brisa tépida te inspiras.

Leva contigo as minhas fantasias
E as lembranças de criança que querias
Conhecer tal-e-qual um dia ouviras.

Sobrália – 10 11 2008

PARABÉNS!!

PARABÉNS!!

Se não soubesses ser eu o teu poeta,
Talvez até a ti surpreenderia
Ter tua sereníssima alegria
Como fotografia predileta.

O telegrama em mãos d'um estafeta
Do meu amor por ti mais te diria.
Ou ainda um ramalhete ao fim do dia
Te celebre a conquista d'essa meta.

Do jardim dos meus anos, a mais linda
Flor entre as flores, cuja boa vinda
Nos traz pura beleza desde os gens.

Por ti possam se abrir de novo os céus,
A que recebas este e outros troféus:
-- "Felicidades, linda! Parabéns!! "

Belo Horizonte - 11 12 1991

PEDIDO DE NOIVADO

PEDIDO DE NOIVADO

Procuro-te a mulher por trás do véu
A ver-te face a face tal como és.
E é por isso que agora eu, aos teus pés,
Peço clemência por confesso réu.

Tentei pôr por escrito no papel
Cada lance de sorte e de revés
Do romance que somos, através
De versos que anteviram esse anel:

-- "Meu bem querer, recebe-me esta aliança
Que às nossas vidas tragam d’oravante
Outro brilho d’amor e de esperança."

"Possa enfim ecoar por teu peito amante
O meu “eu te amo” eterno na lembrança
Ao fazer o próprio ouro mais brilhante."

Betim – 20 12 1997

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

O ALCOÓLATRA

O ALCOÓLATRA

Os anos que passaram pelo espelho
Branquearam minha barba e meus cabelos...
Bem como pelos peitos alvos pelos
Recobriram-me a pele vil de velho.

E por vezes me dói tanto o meu joelho,
Que mal sei dar aos pombos uns farelos.
Noites inteiras passo entre desvelos,
Enquanto um esporão brota no artelho...

Pois é... Olheiras fundas, carnes moles...
Mais a papada, pintas, manchas, rugas...
E as mãos cheias de calos e verrugas.

Uma vida passada toda aos goles,
Para no fim, tão pobre quanto  Jó,
Entregar minhas cãs de volta ao pó...

Belo Horizonte - 20 09 2009

FLERTES

FLERTES

Só de longe; de longo e oblíquo olhar
Tenho eu te conhecido... Olhos furtivos
Que ficam te admirando os atrativos,
Conquanto seja tolo ou até vulgar.

De facto, não tem hora nem lugar
Para perdido em teus olhos tão vivos
Eu tenha por fim meus olhos captivos
Por força já de tanto eu te mirar.

Dona, porém, de meus olhos e olhares
Não me percebes todo este cuidado
Com que, em silêncio, eu tenho te amado.

Tudo isso saberás quando me olhares...
Ou não... Se tão altiva quanto o sol,
Que ignora a devoção d'um girassol...

Belo Horizonte - 21 10 1992

domingo, 6 de novembro de 2016

DE BOCA EM BOCA

DE BOCA EM BOCA

Pois como sabem Deus e todo mundo,
Palavras loucas, só orelhas moucas...
Loucuras d'amor clamam quase roucas
As aluadas segundo após segundo:

-- "Há astros a luzir no céu profundo
Em conjunções que ensejam visões loucas."
Mesmo suas estrelas sendo poucas,
Veem nas fases da lua algo fecundo.

E trocam simpatias, sortilégios,
Feitiços de paixão, poções d'amor...
Tirando-se lhe a sorte em seu favor.

De boca em boca espalham seus colégios
Onde ensinam as artes amorosas
Que fazem as mulheres perigosas.

Betim - 13 05 1993

AMAZONAS

AMAZONAS

Nuas, as duas belas se entreolharam,
Entregues aos prazeres mais proibidos.
Na embriaguez de desejos escondidos.
Admiradas de si, elas se amaram.

Logo os lábios das lésbias se tocaram
E seus mamilos muito intumescidos
Como se figos alvos bem crescidos
Uma à outra, dulcíssimos, beijaram.

Orvalhados os sexos, já arfantes
Se trocavam carícias delirantes
Com ardores e gozos inclementes.

Amazonas, guerreiras do amor,
Cavalgam-se com tríbade furor,
Até, enfim, quedarem inconscientes...

Belo Horizonte - 09 07 1993

CÂNFORA

CÂNFORA

Toda a casa cheirava à choro e vela
Ou uma d'essas fragrâncias vãs de empório.
Como se ainda há pouco algum velório
Onde a sala faz vezes de capela...

Mas o cheiro que enchia a casa d'ela
Parecia mesmo algo merencório.
Ainda que com modos de finório,
Postando-se de pé junto à janela...

Eram duas figuras solitárias:
Ela, com os seus santos e seus mortos;
Ele, com sua culpa e desconfortos...

Assim, face a figuras tão contrárias,
Sentira eu a tarde toda, bem ou não,
De cânfora, um odor de solidão.

Inhapim - 05 11 2016

sábado, 5 de novembro de 2016

RODOVIA BR 116

RODOVIA BR 116

Os ônibus que partem para longe
Saem já de madrugada no sereno.
À noite, em meio às horas, me apequeno
Ainda que a vidraça outrem esponge.

Mas na hora da partida, feito um monge,
Reze todo um rosário por ameno
E saiba que se faça a mim mais pleno
A mesma imensidão que nos alonge.

De facto, na distância, ando tão só...
Mesmo que me reserve só por dó,
Amar aqueles olhos já perdidos.

Não obstante, há os ônibus e horários...
Os caminhos insistem, mas tão vários,
Que me levem além d'esses olvidos!

Inhapim - 04 11 2016

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

O CONVITE

O CONVITE

Corro os olhos p'la folha amarelada
Onde há anos um nome está escrito.
Mas tanto tempo faz! Mal acredito
N'aquela letra ali tão bem traçada.

Recordo-me da carta não enviada
E de seu estupor quase infinito
Que a mim, tão desolado quanto aflito,
Deixou sem qu'eu pudesse mudar nada.

Dez anos se passaram... E, de novo,
Eu e ela estivemos face a face,
Sem que se houvesse fim àquele impasse.

D'esse convite ainda eu me comovo,
Após ver como um erro permanece
No coração de quem jamais o esquece.

Belo Horizonte - 09 11 2006

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

FINADOS

FINADOS

Já recolhido ao quarto de dormir
Aguardo o sono vir com outro sonho.
Considero 'inda o tempo que disponho
Entre as luas d'agora e as do porvir.

Meus olhos se ressentem de insistir
Em antever na noite algo bisonho:
Quando da juriti o roar tristonho
Através dos sertões se faz ouvir.

A hora passa sem qu'eu nem me aperceba...
Não importa o que dê ou que  receba
O amor não era mesmo para ser...

E o sono traga o sonho simplesmente
Sem pensar no que venha pela frente
Permita tão-somente eu me esquecer.

Sobrália - 02 11 2010

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

A OLHOS VISTOS

A OLHOS VISTOS

Havia acontecido uma mudança:
Os dois já não se viam com ternura.
Veem, da vida passada e da futura,
Uma a uma  se frustrar cada esperança.

Perdidos o respeito e a confiança
Restara um dia a dia de amargura
Onde a dor se avizinha da loucura,
Apagando do bem qualquer lembrança.

Testemunham após o pior de si
Como se não houvesse mais ali
Nem sombras da alegria que os unira.

E o amor, agonizando ora a olhos vistos,
Morreria ao menor dos imprevistos,
Como tivesse sido uma mentira.

Betim - 09 11 2009

terça-feira, 1 de novembro de 2016

DESARVORADO

DESARVORADO

A despeito dos nomes tão pomposos
Ou das palavras belas e sensatas,
Nada mascara mais suas ingratas
Razões para iludir os desditosos.

Sempre co’os ditos mais espirituosos
Nos repete historietas e bravatas,
Por fazer crer que tem luzes inatas,
Ocultando interesses duvidosos.

Quem guindado às alturas do poder,
Faz, absolutamente, o que bem quer
Enquanto o embasbacado tudo aplaude.

Seja este só mais um desarvorado,
Que quando do palanque for apeado
Não faltará já outro que lhe malde.

Betim – 01 10 2009