quarta-feira, 19 de julho de 2017

ARRAIAL

ARRAIAL

Um lugar longe e pequeno
Em noite de grande festa...
Derramava luar pleno
Sobre fogueira e sereno,
Rebrilhando suor na testa.

Vinham mocinhas faceiras
Entre olhares e meiguices
Se rindo das brincadeiras
N'aquelas rodas danceiras
A rodar sem-vergonhices.

Contudo, quedava eu triste
Em meio a tanta alegria.
Tão estranho era à folia,
Que pensando em quanto existe
Mal lembrava que existia...

Quem na treva olvida a luz
Fecha os olhos para o belo.
A noite passa em desvelo
Sem ver aonde conduz
O amor e seu atropelo.

Pois, se o povo folgando
Não me cura o coração,
O que resta é a ilusão
D'encontrar-me vez em quando
N'uma festa de são João.

Betim - 24 06 2017

terça-feira, 18 de julho de 2017

HOMILIA

HOMILIA

Em verdade, ninguém sabe de Deus...
O que quis, o que quer ou há-de querer.
Todos apenas veem o Seu poder
E intuem da realidade os sonhos Seus.

Os homens -- quer patrícios; quer plebeus --
Só reconhecem Deus dentro do ser,
N'uma consciência plena de saber
Que traz discernimento aos olhos meus.

Deus é mistério. Deus é além-tudo...
Diante d'Ele melhor eu quedar mudo
Do que viver falando em Seu nome.

Melhor é admitir minha ignorância
E silenciar de toda essa inconstância
Que através da existência nos consome.

Sorocaba - 18 07 2017

domingo, 16 de julho de 2017

O ARQUEÓLOGO

O ARQUEÓLOGO

Na cratera d'algum vulcão extinto
Ou nas ruínas d'um palácio etrusco
Vestígios de quem fui ainda busco
E as lendas que descri por fim desminto.

Camadas e camadas de indistinto
Pó cobrindo o horizonte revelhusco...
De civilizações o lusco-fusco
Percorro em intrincado labirinto.

Talvez mais no passado que ao presente
Eu viva de mim mesmo indiferente,
Olhando para além do quotidiano.

Por isso têm me visto distraído:
Por caminhos que vão até o Olvido,
Sigo as pegadas vãs do ser humano...

Sorocaba - 16 07 2017

terça-feira, 11 de julho de 2017

UMA MARIONETE

UMA MARIONETE

Transita entre o caos e o extraordinário
Com liames a prender-te as mãos e os pés.
De qualquer modo, mal sabes quem és:
Apressa o passo em frente -- e sim -- no horário!

Não te alegra o espetáculo, ao contrário,
Mal suportas a vida e seu revés...
Só te resta encarar, mesmo de viés,
Outra revolução do proletário.

Busca certezas mais tranquilizantes
Às dúvidas sempre inquietadoras,
Visíveis em muitíssimos semblantes.

Mas finge quando vês reveladoras
Mudanças que mantém tudo como antes
Mostrarem-se, afinal, conservadoras…

Betim - 11 07 2017

O AUTOINTITULADO

O AUTOINTITULADO

Diz-que falar demais e ouvir de menos
É o mal de quem pensa saber tudo.
Este não conseguia quedar mudo
Face a problemas grandes ou pequenos.

Chamam-no de "doutor" sem ter ao menos
Atravessado uns bons anos de estudo...
Impõe tal tratamento a si contudo,
Encarando-nos com olhos amenos.

Media-se o saber com seu dinheiro,
De sorte que falava o tempo inteiro,
Sem saber do que estava enfim falando.

Atentos às palavras de seus lábios,
Comparavam-lhe os ditos aos mais sábios
Por melhor o iludir de quando em quando.

Betim - 10 07 2017

sábado, 8 de julho de 2017

FALCOARIA

FALCOARIA

Pousada em minha destra, olhos vendados,
A ave aguarda na névoa matutina
A ordem de começar sua rapina,
Por todos esses campos e banhados.

Tensa, ainda mantém os pés arqueados
Pronta para a guerreira disciplina,
Que fez sempre tão próspera a assassina,
Ao deixar rastejantes destroçados.

Acto contínuo, tiro d'ela a venda,
Lanço-a e logo alça voo de encontro ao vento,
Buscando nas alturas nova senda.

Porém, se cá no chão vê movimento,
Despenca desde as nuvens em contenda...
Levanta em pleno ar um peçonhento!

Betim - 07 07 2017

quarta-feira, 5 de julho de 2017

VELÓRIO

VELÓRIO

A vela acesa, o fósforo apagado...
Sobre a mesa os distingo pensativo:
"Se para morrer basta-se estar vivo,
Eis aqui vida e morte lado a lado!"

A luz a propagar-se é antes Fado,
Que às trevas devassava imperativo.
Resta apenas prantear sem lenitivo
Tudo o que agora fica no passado.

O fósforo apagado, a vela acesa...
Se este ardeu sua vida com presteza,
Aquela se consome lentamente.

Em chamas, todavia, vão queimar
Seja ligeiro; seja com vagar,
Como luz que alumia indiferente.

Betim - 04 07 2017

segunda-feira, 26 de junho de 2017

CORPO A CORPO

CORPO A CORPO

Como em luta eu jogar contra o teu peito
Meu corpo sob teu corpo atravessado
Para que toda entregue ao meu cuidado
Te possua no abraço mais estreito.

Uma pequena morte d'esse jeito
Nós vivemos enquanto lado a lado
Me tiras todo o fôlego e, esgotado,
Enfim eu me abandono sobre o leito.

Nas lides d'amor sempre sou vencido
Pela tua violência carinhosa
Que em minha carne tenho mais sofrido.

Decerto uma inimiga perigosa
A quem por suave força submetido
Mais de minha fraqueza por fim goza.

Pouso Alegre - 18 06 2017

domingo, 25 de junho de 2017

INTROSPECÇÕES

INTROSPECÇÕES

Não raro veem a vida como luta
Entre o que se precisa e o que se quer.
Todo humano -- seja homem ou mulher --
Busca assim orientar sua conduta.

Mas quem o coração melhor escuta
Percebe que afinal, venha o que vier,
Razão não há uma única sequer
Para tanta esperança resoluta.

O que acontece ao longo d'essa vida
Faz a estrada onde andamos em comum,
Indo de nada p'ra lugar nenhum...

Passo a passo, porém, é percorrida
Rumo justo ao que nunca se compreende
E ao fim que cedo ou tarde nos surpreende.

São Paulo - 17 06 2017

sábado, 24 de junho de 2017

SOBRE NÓS

SOBRE NÓS

Que bom termos um ao outro! Mas que bom
Estar contigo agora nos teus braços!...
E reter de teu rosto os finos traços...
E ouvir de tua boca o doce som...

Entregue a teus carinhos, tens o dom
De fazer-me esquecer de meus cansaços,
Ao me deixares com beijos e abraços,
Por toda a pele marcas de batom...

Quem me dera ficar! Mas quem me dera
Poder não me afastar nunca de ti!
E viver para sempre esta quimera...

Sem embargo, possa eu deixar aqui
Perpetuada a alegria que tivera,
Certo de que hoje um grande amor vivi.

Betim - 26 05 2017

MORAL DA HISTÓRIA

MORAL DA HISTÓRIA

Do bate-papo ao bate-boca, a voz
S'eleva em meio à turba em desvario.
De longe, só se escuta um vozerio,
Que muito pouco ou nada diz de nós.

Incerto do que possa vir após,
Eu resisto a tão-só me encher de brio.
Pois pouco importa já se choro ou rio:
Sem moral nem história, somos sós...

Mais longe da verdade que do nada
A discussão seguia acalorada
Acerca do que é certo e do que não.

Mas a única certeza era da glória
De se fazer ouvir... Moral da história:
Nenhum correto e todos têm razão!

Betim – 31 05 2017

CASA DE ORATES

CASA DE ORATES

Passado o surto, vem a letargia...
Horas e horas olhando para os lados!
Onde zanzam por pátios clausurados,
Evitando-se a própria companhia.

Após, medicação e terapia:
Co'a rotina de médicos cuidados,
Já aéreos, alheios e alienados,
Vivemos a ilusão de mais um dia.

Por incapaz de ter as ideias certas
Eu ando imerso em minhas descobertas,
Ainda que ninguém possa entender.

No fim das contas é isto a loucura,
Ou seja, n'uma casa cheia e escura,
Entre outros esquecidos s'esquecer...

Betim - 06 06 2017

O DESAFECTO

O DESAFECTO

Que maçada! Rever quem não quero ver...
Quem me fez chorar lágrimas amargas!...
Tanto fez que me fez burro de cargas
Ainda qu'eu tardasse a perceber.

Este -- tão fastidioso e inútil ser! --
Se orgulhava de ter as costas largas...
Às minhas, porém, vergas nas ilhargas
Fez sua língua de açoite a maldizer!

Inimigo de amigos, sacripanta!
A falsidade d'ele fora tanta,
Que dá repulsa só d'eu me lembrar.

Topar com ele justo aqui e agora
Co'a mesma cara estúpida d'outrora,
Foi só e infelizmente muito azar...

Betim - 10 06 2017

O CANDIDATO

O CANDIDATO

Vinha trocando pernas pela rua,
Quando parou defronte à prefeitura,
Como se lhe avaliasse a arquitetura
Ébrio sob a luz pálida da lua.

Súbito, passa a mão pela calva nua,
Sustentando co'a voz teatral figura...
Discorre de nossa glória mais futura
E o que mais à cidade contribua.

Trazia mais respostas que perguntas
E a fé de que as pessoas quando juntas
Têm força p'ra mudar o mundo todo.

Por fim, perdido entre fins e meios
Só faz alimentar novos anseios
Até que outra esperança vire engodo...

Capão Bonito - 15 06 2017

BUCÓLICA

BUCÓLICA 

Foi na noite dos tempos, ainda antes
D'haver um nome para cada cousa...
Foi quando o traço escrito sobre a lousa
Soube ressoar os ais de dois amantes.

Assim poeta e pastor -- seres errantes --
Fez-se aquele que com palavras ousa
Nas soledades onde o olhar repousa
Pôr em versos amenos seus instantes.

Muito antes dos idiomas, as canções
Expressavam dos poetas emoções
Em grunhidos bárbaros ritmados.

Desde sempre à Natura sons tomando
No afã de que com versos quando em quando
Encher os campos d'ecos namorados.

Capão Bonito - 16 06 2017

SUBPROLETÁRIO

SUBPROLETÁRIO

Enquanto uns poucos tinham quase tudo,
Quase todos tinham quase nada.
Mas todos n'essa terra desolada
Muito sós... Do miúdo ao mais graúdo!

Muita miséria aqui o sobretudo
Esconde-me jornada após jornada...
Em meio os que na rua têm morada,
Vejo um povo fechado e carrancudo.

A vista da cidade era d'extremos:
A carência e a opulência desmedidas
N'um diário espetáculo vividas.

Se for tudo o que somos o que temos,
A riqueza se faz do que perdemos
E, ao fim, se faz de nossas próprias vidas.

São Paulo - 17 06 2017

domingo, 4 de junho de 2017

NO JUQUINHA

NO JUQUINHA

Quem desapareceu virou estrela
E foi luzir bem alto lá no céu.
Mas ficou na memória sob o véu
Da serração mirando a aurora bela.

O seu sorriso aberto por nós vela,
N'esses sertões de andar de déu em déu,
Deixando-nos aqui e ali e ao léu
Os passos que veredas nos revela.

Quem desapareceu virou estátua
Depois de brilhar feito chama fátua
E trilhar os caminhos mais distantes.

Ele, que mereceu permanecer,
Nos mostra co'a imagem de seu ser
Quão bem-aventurados os errantes.

Morro do Pilar - 10 10 2012

sexta-feira, 2 de junho de 2017

MORAL DA HISTÓRIA

MORAL DA HISTÓRIA

Do bate-papo ao bate-boca, a voz
S'eleva em meio à turba em desvario.
De longe, só se escuta um vozerio,
Que muito pouco ou nada diz de nós.

Incerto do que possa vir após,
Eu resisto a tão-só me encher de brio.
Pois pouco importa já se choro ou rio:
Sem moral nem história, somos sós...

Mais longe da verdade que do nada
A discussão seguia acalorada
Acerca do que é certo e do que não.

Mas a única certeza era da glória
De se fazer ouvir... Moral da história:
Nenhum correto e todos têm razão!

Betim – 31 05 2017

sábado, 20 de maio de 2017

LIVROS DE FOLHEAR

LIVROS DE FOLHEAR

E se n'um piscar de olhos o desenho
Se movimenta assim, folha por folha,
Em viva animação para quem olha
A ponto d'envolver com tal engenho,

Talvez a cor desfaça o sobrecenho
N'algum divertimento que recolha
Para além das palavras essa escolha
De se ter ao folhear diverso empenho.

Tal-qual a escrita faz nas entrelinhas,
Figuras contando outras historinhas
-- Quando os olhos cansados já de ler... --

Possam se lhes servir de complemento
De modo a aprofundar o entendimento,
Transformando a maneira de se ver.

Betim – 05 05 2017

O NOME DAS CORES

O NOME DAS CORES

Há emoções às vezes tão visuais
Que não cabem apenas na linguagem.
O nome dado às cores traz a imagem,
Que traduz sentimentos e sinais.

Quando virem poesia em tudo mais,
As cores servirão como mensagem;
Serão de mil palavras uma viagem
Entre dois corações e tantos ais:

Um amarelo amaro, um azul céu
E uma verde esperança sobre cinzas
Espalhadas no branco do papel...

Iluminando as faces mais ranzinzas
As cores se revelem plenamente
Tudo que não se diz porém se sente.

Betim – 10 05 2017

quarta-feira, 17 de maio de 2017

O ANTICONSPIRACIONISTA

O ANTICONSPIRACIONISTA

Procuro parecer bem preocupado
Com factos insondáveis aos pequenos.
Porém, trato os vulgares com somenos
E os mais cheios de razão deixo de lado...

Deveras, estou muito atarefado
Em ser nas trevas luz ou, pelo menos,
Fazer crer aos espíritos amenos
Que um mistério será sim revelado.

Às voltas com grandíssimos problemas,
Decifro os intrincados teoremas,
Que se ocultam por trás das globais redes.

Só eu vejo da trama cada indício...
Não obstante trancado n'um hospício,
Escrevendo com fezes nas paredes.

Betim - 15 05 2017

sábado, 22 de abril de 2017

CATA-SONHOS

CATA-SONHOS

Dependurada sobre a minha cama
Uma peneira com ossos e penas.
Onde vejo passar brisas amenas
Antes que o sono traga uma outra trama.

O luar pela janela se derrama
E projeta na mente belas cenas;
Vãs imaginações deixando apenas
Mais poluções noturnas no pijama...

Os sonhos qu'eu aqui tenho sonhado
Sob a aura benfazeja do amuleto
Mostram dores e amores lado a lado.

Pois mesmo meu desejo mais secreto
De mim para mim me era revelado
Quando me cata sonhos esse objeto.

Betim - 21 04 2017

SORORIDADE

SORORIDADE

Saúdo essa irmandade de mulheres,
Que tem nos feito todos mais humanos.
Difere do que vejo há tantos anos
Às voltas com direitos e deveres.

Há-que tornar mais sábios os saberes
Sem ignorar dos homens seus enganos
Ao denunciar de tantos tantos planos,
Que perpetuam estúpidos poderes.

Sórores -- religiosas ou nem tanto --
Lutando contra séculos de abusos;
Pelo que talvez haja de mais santo!

Por isso desmascaram os obtusos,
E enaltecem àquelas cujo encanto
Está em pôr os tolos tão confusos.

Betim - 22 04 2017

terça-feira, 18 de abril de 2017

ANGORÁ

ANGORÁ

Sabe a gata
Aonde anda.

Sobe e desce
Na varanda!

Fala mansa...
Ordem branda...

-- "N'essa gata,
Ninguém manda.

Vira-lata
De quitanda!..."

Preguiçosa
Como um panda,

Pulou no ar...
Caiu de banda!

Betim - 18 04 2017

quinta-feira, 13 de abril de 2017

NOVENTA E NOVE TROVAS

PRIMEIRA

Chamam às quadras de trovas,
Quando co'o metro dileto
Têm, ao trazer boas-novas,
Em si um poema completo.

            *   *   *

SEGUNDA

Silva o rebenque no arranque:
-- "Zurra burro! Relincha égua!"
Que importa que mula manque?
Vou rosetar mais meia légua!...

            *   *   *

TERCEIRA

Olhos nos olhos da fera
E pernas p'ra que te quero!
Tomo onde menos s'espera
Carreiras de desespero...

            *   *   *

QUARTA

Hoje te vejo de perto;
Amanhã eu vou-me embora...
À noite passo desperto
Para ver-te desde a aurora!

            *   *   *

QUINTA

Uns olhos de verde gaio
Passo os dias a admirar.
Olhos que olho de soslaio
Para ela não me maldar.

            *   *   *

SEXTA

Pôr gravata vez em quando
Qual arreio em potro xucro:
Nasci desnudo e berrando...
Venha o que vier será lucro!

            *   *   *

SÉTIMA

Muitos dizem ser mentira
Isto de amar de verdade.
Mas quanto o peito delira
Não sabem nem a metade...

           *   *   *

OITAVA

Se nada vem por acaso,
Por que só me vens co'a lua?
A saudade, em todo caso,
Ao meu lado continua.

           *   *   *

NONA

-- "Meninas de bendizer!
Mulheres de bem amar!
Onde anda meu bem-querer?
Onde haveria-de andar?"

           *   *   *

DÉCIMA

Vez em quando me lamento
Das voltas que o mundo dá.
Volta e meia é sentimento
Algo bom em hora má.

           *   *   *

DÉCIMA PRIMEIRA

A morte vem a galope
Montada n'um corcel negro...
Doente, já tomo xarope;
Triste, ligeiro me alegro.

           *   *   *

DÉCIMA SEGUNDA

-- "Eu vou mais logo à cidade
Mas volto ainda cedinho."...
O tempo d'uma saudade
Não passa quando sozinho!

           *   *   *

DÉCIMA TERCEIRA

Abro olhos a ver e olhar,
Ora raso; ora profundo.
Fecho olhos a imaginar 
A imensa imagem do mundo.

           *   *   *

DÉCIMA QUARTA

Cumbuca de sapucaia
A prender mão de macaco,
Que nem onça na azagaia
Presa dentro do buraco.

           *   *   *

DÉCIMA QUINTA

Alguém que cedo madruga
Com mais ajuda de Deus
Apenas suores enxuga,
Não as lágrimas dos seus...

           *   *   *

DÉCIMA SEXTA

A espera de quem alcança
Sempre é difícil momento.
Há quem chame de esperança 
E outros de padecimento...

           *   *   *

DÉCIMA SÉTIMA

Jamais toma as minhas dores,
E ainda me põe no fogo...
Com quem não morro d'amores,
Só falo "olá" e "até logo".

           *   *   *

DÉCIMA OITAVA

Quem faz hora, nada faz:
Perde tempo seu e alheio...
Homem vão em horas más,
Sempre bota Deus no meio!

           *   *   *

DÉCIMA NONA

Muitos vão do luto à luta
Com sangue nos olhos fitos.
Misturam fel com cicuta,
No cálice dos aflitos...

           *   *   *

VIGÉSIMA

Mineiro não faz presença,
Nem diz falso frase leda.
Tampouco pede licença,
Ele diz mesmo é "arreda!".

           *   *   *

VIGÉSIMA PRIMEIRA

Sou, como diz o outro, prático:
Não caço chifre em cavalo!
Quem me sabe sistemático
Cala a boca quando eu falo.

           *   *   *

VIGÉSIMA SEGUNDA

O dia tem tantas horas,
Que às vezes nem me dou conta.
Ai senhores, ai senhoras,
Logo o sol no céu desponta!

           *   *   *

VIGÉSIMA TERCEIRA

Tem a ver com ir em frente
Essa coisa de viver.
A gente olha e, de repente,
Tudo está a acontecer.

            *   *   *

VIGÉSIMA QUARTA

Tem dias que nem discuto:
"Tudo é como tem de ser"...
N'outros, digo resoluto:
"Nada tem quem tudo quer!" 

            *   *   *

VIGÉSIMA QUINTA

Tudo é confuso -- não nego --
Quem tenho sido eu não sei,
Se rei em terra de cego       
Ou cego em terra sem rei.

            *   *   *

VIGÉSIMA SEXTA

Cheio de boas intenções
Faz-se da vida um inferno...
O que são desilusões 
Quando o suplício é eterno?

            *   *   *

VIGÉSIMA SÉTIMA

Vive com medo de aranhas
Quem d'elas teme o veneno.
Eu a conversas estranhas
Evito desde pequeno.

            *   *   *

VIGÉSIMA OITAVA

Dizem que em noite de lua
Aparece assombração.
Mulher de branco na rua
Já me dá palpitação.

            *   *   *

VIGÉSIMA NONA

Devagar se vai ao longe
E com Deus no coração.
Se o hábito não faz o monge,
Tampouco a cruz o cristão.

            *   *   *

TRIGÉSIMA

-- "Ó menina dos meus olhos!
Ó menina d'olhos meus!
Por que prendes a ferrolhos
Este amor que te deu Deus?"

            *   *   *

TRIGÉSIMA PRIMEIRA 

Se Deus fez o mundo todo
Em sete dias precisos,
Espalhou homens a rodo,
Mas lhes negou paraísos.

            *   *   *

TRIGÉSIMA SEGUNDA

Nunca dou ponto sem nó
Em catiras com vizinho:
Levo tombo uma vez só;
Na segunda, vou sozinho.

            *   *   *

TRIGÉSIMA TERCEIRA

Escorre à ponta dos cílios
Lágrimas desde o infinito...
Amor de mãe pelos filhos
É o maior e o mais bonito.

            *   *   *

TRIGÉSIMA QUARTA

Um pai zela de dez filhos,
Mas dez não zelam d'um pai...
Feito trem fora dos trilhos,
Ninguém sabe aonde vai.

            *   *   *

TRIGÉSIMA QUINTA

De dois dedos de prosa
A garrafas de poesia!...
A conversa é mais gostosa
Quando a cachaça a inicia.

            *   *   *

TRIGÉSIMA SEXTA

Atrás da porta outro escuta
O segredo que se esconde...
Quando envolve uma disputa,
Punhal vem sem saber d'onde. 

            *   *   *

TRIGÉSIMA SÉTIMA

Cai a máscara do falso;
Embarga a voz do falaz.
A verdade é cadafalso
Do ardiloso contumaz.

            *   *   *

TRIGÉSIMA OITAVA

Não sei se me calo ou falo,
Mas quem só serve, servo é...
Enquanto existir cavalo
São Jorge não anda a pé!

            *   *   *

TRIGÉSIMA NONA

Quem tem dois pássaros voando,
Mas nenhum na sua mão,
Sonha ter de quando em quando
Posse da própria ilusão.

            *   *   *

QUADRAGÉSIMA

Não há erro mais humano,
Que fazer a coisa certa.
Se é no mundo tudo engano,
Dá-se mal quem o conserta.

            *   *   *

QUADRAGÉSIMA PRIMEIRA

No sertão da minha terra,
Passa boi, passa boiada...
O olhar nos longes da serra;
Além da curva da estrada.

            *   *   *

QUADRAGÉSIMA SEGUNDA

O ninho do joão-de-barro
No alto do jacarandá.
Parece um tanto bizarro
Quando morador não há.

            *   *   *

QUADRAGÉSIMA TERCEIRA

Pega o boi com chifre e tudo
Quem cuida da própria vida.
Demanda trabalho e estudo
O fazê-la bem vivida!...

            *   *   *

QUADRAGÉSIMA QUARTA

Conta o milagre do santo,
Mas não conta o milagreiro.
Gratidão não chega a tanto
Quando a graça é mais dinheiro...

           *   *   *

QUADRAGÉSIMA QUINTA

-- “Aqui, um conto de réis!
Ali, um milhar de reais!
Se se vão dedos e anéis
Nem já os reis são reais...

           *   *   *

QUADRAGÉSIMA SEXTA

A ocasião faz o ladrão;
A aventura faz o herói...
É, n'uma história, o vilão
O que nunca se condói.

           *   *   *

QUADRAGÉSIMA SÉTIMA

Juventina tem cem anos;
Dona Mocinha, noventa...
Quem faz alegres seus planos 
É mais jovem que aparenta.

           *   *   *

QUADRAGÉSIMA OITAVA    

Se é trovador quem faz trovas
Penso eu ser um, afinal.
Tu que lês ora o comprovas
Para o bem ou para o mal...

           *   *   *

QUADRAGÉSIMA NONA

Venda "secos e molhados"
Com cadeiras na calçada...
Onde chegamos cansados
A cerveja é mais gelada.

           *   *   *

QUINQUAGÉSIMA 

Fico até mais crente ao vê-la
Vir em roupas de ver Deus,
Quando reza na capela
Para si e para os seus.

           *   *   *

QUINQUAGÉSIMA PRIMEIRA 

Se muito grande é o mundo,
Ainda maior o Universo...
O olhar mais largo e profundo
Cabe todo n'um só verso.

            *   *   *

QUINQUAGÉSIMA SEGUNDA

Bem diziam os antigos:
-- "Tudo o que viste, Deus viu!
Ele quem com mil perigos
Distingue o bravo do vil."

            *   *   *

QUINQUAGÉSIMA TERCEIRA

Vire e mexe um vem e diz
Para tudo ter respostas.
Triste quem quer ser feliz,
Com receitas, não apostas...

            *   *   *

QUINQUAGÉSIMA QUARTA

Um pé de laranja lima
Carregado de florzinhas,
Eu olho de baixo a cima
À procura de joaninhas.

            *   *   *

QUINQUAGÉSIMA QUINTA

Andorinha faz verão,
Quando em bando, não sozinha!
Uma só é solidão; 
Uma é só andorinha.

            *   *   *

QUINQUAGÉSIMA  SEXTA

Quem pode ter qualquer um
Não raro não quer ninguém.
Antes quer, sem pejo algum,
Todo mundo em vez d'alguém.

            *   *   *

QUINQUAGÉSIMA  SÉTIMA

Trago um arranjo de flores
Para roubar-te um sorriso.
Se em teus olhos vejo amores,
Tenho tudo qu'eu preciso!

            *   *   *

QUINQUAGÉSIMA  OITAVA

Papo de cerca-lourenço...
Conversa p'ra boi dormir...
Quando o discurso é extenso
Se concorda sem ouvir.

            *   *   *

QUINQUAGÉSIMA  NONA

Se alguém anda tão-somente
Sem dar conta do que faz,
Dá um passo para frente
E dois passos para trás.

            *   *   *

SEXAGÉSIMA

O fogo que em vão atiço
Saltou longe do braseiro...
É assim quando o feitiço
Vira contra o feiticeiro!

            *   *   *

SEXAGÉSIMA PRIMEIRA

Dias há em qu'eu me sinto
De costas p'ra própria vida.
Tudo parece indistinto,
Já frustrado de saída...

            *   *   *

SEXAGÉSIMA SEGUNDA

Nas voltas que dá o rio;
Nas voltas que o rio dá:
Canoa em remanso frio
É toda a beleza que há!

            *   *   *

SEXAGÉSIMA TERCEIRA

Põem a verdade de lado
Quando razão querem ter!
Jamais será encontrado
O que já não se quer ver...

            *   *   *

SEXAGÉSIMA QUARTA

Corria à boca miúda
A última d’algum incauto:
Quem nunca a ninguém ajuda
Cai no chão olhando pr’o alto!

            *   *   *

SEXAGÉSIMA QUINTA

À meia noite era meia lua 
Brilhando sobre a cidade.
Andarilhos pela rua,
Corações pela metade.

            *   *   *

SEXAGÉSIMA SEXTA

Mas quem me ilumina o rosto
E parte o seu pão comigo,
A este acompanho com gosto;
A este que chamo de amigo.

            *   *   *

SEXAGÉSIMA SÉTIMA

As paredes têm ouvidos;
As janelas, muitos olhos.
A portas fechadas, ruídos
Escapam pelos ferrolhos...

            *   *   *

SEXAGÉSIMA OITAVA

O coração é tambor
Que bate desatinado...
Mil vezes morre d'amor
O que vive enamorado.

            *   *   *

SEXAGÉSIMA NONA

Têm tido mais alegrias
Os últimos que os primeiros;
Aqueles têm fantasias;
Estes, apenas dinheiros...

            *   *   *

SEPTUAGÉSIMA

Ter erudição a uns soa
Como coisa rara e nobre,
Mas a maus olhos destoa,
Qual seda vestindo pobre.

            *   *   *

SEPTUAGÉSIMA PRIMEIRA

Conto quarenta anos feitos:
Já vi e vivi um tanto.
Passos tortos fiz direitos...
Sou bento mas não sou santo!

            *   *   *

SEPTUAGÉSIMA SEGUNDA

Vou para a festa correndo;
Volto para casa andando...
Vejo o dia amanhecendo
Em folias vez em quando.

            *   *   *

SEPTUAGÉSIMA TERCEIRA

Tem dia que não é dia:
Não houve aqui vencedor...
Ninguém é na hora tardia 
Nem caça nem caçador.

            *   *   *

SEPTUAGÉSIMA QUARTA

Depois de posto em garrafa
E de cruzar todo o oceano,
Um vinho me afogue a estafa
E alumbre o meu desengano!

            *   *   *

SEPTUAGÉSIMA QUINTA

Antes cedo do que tarde...
Antes tarde do que nunca!
Embora às vezes se atarde,
O amor de flores se junca.

            *   *   *

SEPTUAGÉSIMA SEXTA

Não me engano nem me iludo
Em descrer dos olhos meus:
O crédulo crê em tudo;
O crente só crê em Deus.

            *   *   *

SEPTUAGÉSIMA SÉTIMA

Um que nem bem vai embora
E já fala em vir de volta...
Triste de quem sem demora
Anda com a língua solta.

            *   *   *

SEPTUAGÉSIMA OITAVA

Isso d'escrever poesia
Para uns é café pequeno.
Esses não têm alegria
Nem o semblante sereno.

            *   *   *

SEPTUAGÉSIMA NONA

Sem-vergonha aqui é mato:
Dá em tudo que é lugar!
O que de manhã eu cato,
À tarde torna a brotar...

            *   *   *

OCTOGÉSIMA

Salamaleques à parte,
O respeito e a cortesia,
Antes são refinada arte
Que custosa fantasia..

            *   *   *


OCTOGÉSIMA PRIMEIRA 

Quem dá o que não possui
Perde até o que não tem.
Não se sabe mas se intui
O lugar que lhe convém.

            *   *   *

OCTOGÉSIMA SEGUNDA 

O amor é pássaro arisco,
Que se afasta quando acuado.
Sabe em cada olhar um risco
E em cada sorriso um fado.

            *   *   *

OCTOGÉSIMA TERCEIRA 

Fidalgo de meia pataca!
Puto sem eira nem beira!!
Falando igual maritaca
Um caminhão de besteira...

            *   *   *

OCTOGÉSIMA QUARTA

Se segunda à sexta eu busco,
Sábado e domingo eu acho:
Nas sombras d'um lusco-fusco,
Do arrebol o último facho.

            *   *   *

OCTOGÉSIMA QUINTA

Vez em quando vou à forra
Contra as mazelas da vida:
Ainda que viva ou morra,
Antes tê-la bem vivida!

            *   *   *

OCTOGÉSIMA SEXTA

Eu -- mais dia, menos dia --
Parto d'esta p'ra melhor...
Mas fiz tudo o que podia
Com fé, esperança e amor.

            *   *   *

OCTOGÉSIMA SÉTIMA 

Perdem as folhas o viço
Quando vem no outono o frio.
Antes fosse apenas isso,
Mas junto com ele o estio...

            *   *   *

OCTOGÉSIMA OITAVA 

Amanheço na esperança
E anoiteço em desespero...
Minh'alma jamais descansa,
Querendo tudo que quero.

            *   *   *

OCTOGÉSIMA NONA

Molha tolos fina chuva,
Que nos pega de surpresa:
Cai como à mão uma luva,
Tua orvalhada beleza.

            *   *   *

NONAGÉSIMA

Ignora a dor d'este mundo
Quem vive só de aparências.
Qualquer olhar mais profundo
Evitam as vãs consciências.

            *   *   *

NONAGÉSIMA PRIMEIRA

À custa d'algum versinho,
Perdia a hora vez em quando...
A manhã em que escrevinho,
Cheira a café fumegando.

            *   *   *

NONAGÉSIMA SEGUNDA

Em teus olhos vejo estrelas;
Em teu sorriso, promessas...
Mas me negas conhecê-las
N'esse silêncio que expressas.

            *   *   *

NONAGÉSIMA TERCEIRA

Além do bem e do mal,
As razões do coração
Pesam mais do que, em geral,
Qualquer razoável razão.

            *   *   *

NONAGÉSIMA QUARTA

Nada como um outro dia
Para se entender o havido.
Quem ontem riu d'alegria,
Hoje está entristecido...

            *   *   *

NONAGÉSIMA QUINTA

Temo que a estrada da vida
Após muito caminhar
Dê n'um beco sem saída
Ou mesmo em nenhum lugar...

            *   *   *

NONAGÉSIMA SEXTA

Ser feliz -- quer sim; quer não --
É mais empenho que sorte:
Uns buscam ser na ilusão;
Outros, só depois da morte.

            *   *   *

NONAGÉSIMA SÉTIMA

Busca alegria absoluta,
Mas Liberdade primeiro!
Melhor um dia de luta
Do que mil de cativeiro...

            *   *   *

NONAGÉSIMA OITAVA

Às letras eu me dedico
Por mais e melhor saber.
Não que me façam mais rico,
Sim me ensinem a viver.

            *   *   *

NONAGÉSIMA NONA

-- "A quantas andam as trovas
Com que costumas poetar?"
-- "São noventa e nove novas
N'esse livro de folhear."

Betim - 12 05 2017